Abril de 2019 - O que há de novo sobre o assunto de Suzano?

Sobre o massacre de Suzano, apesar de se ter comentado à exaustão, parece-me que se insistiu em pontos que são mais consequências do que razões precedentes

     Uma coisa, que hoje é razão para tudo, é o tal do bullying. Mas, será mesmo?! Bullying sempre houve, só que com o nome de gozação. No meu tempo de infância, a turminha pegava no pé de quem era loiro, que era chamado de ‘Lemão batata, come queijo com barata’. Quem era negro, era chamado de ‘bolinha de piche’. O baixinho, era ‘pintor de rodapé’, e quem era mais alto, ‘grandão bobo’. Quem era gordo, era chamado de ‘bolão’. E quem era magro, o ‘varinha de pescar’. Quem usava óculos, era o ‘quatro-olho’. E quem era vesgo, o ‘vesguinho’.

     Não tinha ninguém que escapasse. E se a gente chegasse chorando em casa, os nossos pais respondiam: “Ao menos, o pai e a mãe gostam de você”. E tudo se consertava. Se os moleques brigassem na rua, que não trouxessem o problema para casa, porque, senão, apanhava na rua e depois em casa. E assim a gente aprendia a lidar com as dificuldades, e se tornava, para usar uma palavra de hoje, resiliente. 

     Outra culpada que encontraram, é a tal da deep web. Mas, será mesmo?! Porque um mundo de gente usa internet, e nem sabe dessa tal deep web. Então, só a usa quem está, realmente, muito a fim de.  

     Outra culpada de tudo é a tal da escola. Mas se a culpada é a escola, um dos matadores, que tinha 25 anos, esperou muito tempo para resolver a questão.  Portanto, venha com outra explicação. E não teriam matado o tio de um dos matadores, que não tinha nada a ver com a escola. Pelo contrário, tinha empregado um deles, até que teve que mandá-lo embora porque descobriu que ele tinha roubado dinheiro da firma. E foi o primeiro a ser morto pelos dois assassinos.

     E agora aparece um monte de gente querendo inventar mais tarefa para a escola: os professores têm de andar armados e se preparar com cursos de defesa corporal e de tiro. Sendo assim, quando os professores vão poder se preparar para simplesmente ensinar português e matemática?!

     Para nos aproximar mais da vida dos dois assassinos, vamos ver a reação de uma pessoa muito próxima deles: “Ele tinha internet, TV a cabo, tinha tudo. E o bobão fez isso!”, disse Tatiana Taucci, mãe de Guilherme, um dos assassinos de Suzano.

     Ah! Tá! A solução de tudo é internet, TV a cabo. A dona Tatiana, que pela adição química vive mais na rua do que em casa, teve o menino fruto de um relacionamento muito rápido, praticamente na sua adolescência. E o menino foi criado mais pelos avôs. E ela culpa o avô, que mal conseguia se colocar de pé depois da tragédia: “É essa a educação que você deu para ele.”

     É certo que ninguém vai colocar como uma das raízes do fato o problema da droga, porque estamos em plena campanha para a descriminalização das drogas. A ausência dos pais, quer porque eles sumiram pelo mundo, quer porque eles estão em casa, mas não são presença efetiva na vida dos filhos.

     Na raiz também vemos outro fator: famílias que não se comunicam, que não se conversam. As pessoas estão sob o mesmo teto, mas mergulhadas nos seus aparelhos celulares, internet, TV a cabo... A família já perdeu sua comunicação, senso de pertença de um para com os outros. Cada um no seu canto, e em cada canto uma dor.

     Isso vai alimentando em adolescentes e jovens em formação uma sensação de frustração, de exclusão e de raiva, que se converte em valentia na deep web através de posts anônimos e com nomes falsos em bolhas de ódio, até explodir em ações espetaculosas como essa, em que se vingam e atingem a fama, triste fama.

     Na maioria das situações da vida, todos somos completamente anônimos. Completo por esses dias um ano de hemodiálise, indo e voltando de ônibus e metrô, no máximo encontrei vinte pessoas conhecidas. Mas eu tenho a minha comunidade religiosa, a comunidade paroquial, os companheiros e os profissionais da clínica, em que eu ‘sou-alguém-para-alguém’. As pessoas perguntam por mim, querem saber de mim. Portanto, eu não sou um bólido desgarrado no espaço. E isso me identifica, me fortalece, apesar das dificuldades que são inerentes a cada dia.

     Para os jovens do seu tempo, que vinham da roça e tinham tudo para se perder na cidade de Turim, Dom Bosco foi o pai, o mentor, o guia, o amigo sempre ao lado. Não vamos nós nos desgarrar dos nossos filhos, dos nossos jovens e adolescentes. Não vamos nos insensibilizar, nos drogar com um monte de coisas, tarefas e aparelhos e nos distanciar deles. Vamos ouvi-los, conversar com eles. Fazê-los perceber que são muito importantes para nós. E vamos encorajar a enfrentar com confiança as dificuldades, a não ter medo de bichos papões. 


Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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