Agosto de 2019 - O que precisa um jovem para se definir na vida?

     Às vezes nos impacientamos com os jovens, que parecem não saber o que querem da vida. E, realmente, para o jovem essa é uma matéria bem difícil. Lembro-me do Carlos, o Gordão, aluno da obra social em que eu trabalhei na Mooca. Expansivo, comunicativo, muito participante. Matriculou-se no curso de Computação e Técnicas Administrativas. Ficou muito amigo do Adriano, o professor de Programação Visual Gráfica, que tocava violão.  Com ele, Carlos participava de um conjunto musical, tocando bateria, que animava as celebrações litúrgicas. Para Carlos, frequentar a obra social era muito bom. Para se sustentar, ele se revezava com a própria mãe trabalhando como cobrador de ônibus urbano de uma cooperativa. Tudo sem carteira assinada, nem nada.

     No dia da formatura dos alunos, conheci uma senhora, que me veio com essas palavras: “Então, o senhor é o padre Ailton?! Em casa, o Carlos, meu filho, só me fala do irmão Benedito e do padre Ailton. Até que enfim estou conhecendo vocês!”

     Aconteceu que o Carlos, entrando nas Escolas Profissionais Salesianas, viu colegas que faziam o curso de Encadernação e Acabamento Gráfico. E, logo após concluir seu curso, se matriculou em outro. E nós incentivávamos que os alunos interessados fizessem um segundo curso, para enriquecer o próprio leque de opções para o mundo do trabalho, e para prolongar a convivência no naquele ambiente educativo.

     E, nessa condição, foi selecionado para ser um empregado temporário na gráfica que tínhamos na obra, agora com carteira assinada e benefícios. De manhã, fazia o curso, e das duas da tarde às dez da noite, trabalhava na gráfica. Ele ficou como auxiliar na máquina dobradeira. Eu passava na linha de produção, e lá estava ele bufando para acompanhar o ritmo. E eu dizia: “E aí, Gordinho, suando muito?!” E ele respondia: “Seu padre, faça questão de me respeitar. Eu não sou Gordinho, não. Eu sou Gordão. Toda essa saliência que eu trago debaixo da pele significa que eu me esforcei muito investindo em mim.”  

     Passados os três meses como temporário, a safra de trabalho extra acabou, e ele foi despedido.  Até que, no início do ano seguinte, quando começaram as aulas, ele voltou: queria agora fazer o curso de Programação Visual Gráfica, com a duração de um ano, onde seria aluno do professor Adriano.  Respondi: “Infelizmente, você chegou tarde. O curso já começou, as vagas estão lotadas. São vinte alunos, e vinte computadores. Infelizmente...” E ele, com bom humor, respondeu: “Esse problema de número é da conta de vocês. O meu problema é só fazer o curso. Portanto, podem arrumar mais um computador, mais uma mesa e uma cadeira, que esse Gordo vai dar para vocês o privilégio da minha presença!” E lá fomos no virar para encaixar o Gordinho, o Gordão, como o leitor quiser.

     No ano seguinte, quando ele já tinha se formado, procurou-me a coordenadora do Departamento de Ensino com uma notícia curiosa. As Indústrias Lorenzetti, do setor de chuveiros, que tinham convênio com a Obra Social Dom Bosco, do Bom Retiro, tinham telefonado para nós, pedindo ex-alunos para a produção de chuveiros. E ela tinha respondido que, infelizmente, não tínhamos cursos nesse ramo, só no ramo gráfico e em Computação e Técnicas Administrativas.  Ao que eles responderam: 

“Se é questão de cortar fiozinho, e apertar parafuso, podem deixar que nós ensinamos os alunos de vocês. Mas queremos os alunos salesianos, porque eles têm prontidão, prestam atenção, sabem trabalhar em grupo, são participativos e quando não entendem, perguntam.”  

     E assim nós enviamos para a Lorenzetti um grupo de alunos formados por nós. Poucas semanas depois, eis que senão aparece de novo Carlos, o Gordo, todo contente e emocionado: “Padre, estou na Lorenzetti, com salário fixo, carteira assinada, convênio médico, e outra coisa: eles patrocinam o curso superior, na Faculdade São Judas.  E vou fazer Engenharia Elétrica, que sempre foi o meu grande sonho”.

     Portanto, nós temos que acompanhar o jovem, participar da vida dele, indicar e abrir o caminho na frente dele. Vibrar com ele, sofrer com ele, sonhar com ele. E isso requer de nós bastante tempo, bastante energia, bastante sonho e generosidade. Que Dom Bosco, santo e educador, nos inspire para sermos sempre figuras presentes na vida dos jovens que Deus confiou aos nossos cuidados.

Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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