Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica

Em outubro de 2019 reunir-se-á no Vaticano a assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica. Cerca de 250 bispos católicos dessa área que envolve nove países foram convocados pelo papa Francisco para, durante três semanas, se ocuparem com o tema: “Amazônia – novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”

     Quando, em junho passado, o instrumento preparatório do Sínodo foi publicado, as manchetes da imprensa mundial deram destaque a um detalhe do texto: a possibilidade da ordenação sacerdotal de homens com família, de provada fé católica, de preferência indígenas, para as comunidades das áreas mais remotas e desassistidas da Amazônia (nº 129). Motivo do pedido: isso iria ao encontro da necessidade premente de assistência religiosa mais completa às comunidades pouco assistidas na vasta Região Amazônica. Não se trata ainda de nenhuma decisão e, se o Papa aprovar esse pedido, ainda haverá um bom caminho a percorrer. O tema do Sínodo, porém, é muito mais amplo que isso.

     Não é de hoje que a Amazônia desperta a atenção do mundo por variados motivos e interesses. A Igreja Católica está presente nessa região, através dos missionários, desde a chegada dos europeus, no século XVI. Hoje essa presença é capilar nas comunidades católicas organizadas em toda a extensão do território e através de instituições estáveis, como dioceses, paróquias, congregações religiosas, seminários, escolas, hospitais e numerosas obras sociais para o serviço das populações locais. Graças também à presença secular de missionários e organizações da Igreja no meio das populações indígenas, estas preservaram suas línguas e costumes e puderam usufruir de proteção e benefícios para a saúde e a educação.

     Atualmente há novos interesses nacionais e internacionais voltados para a grande Amazônia, em vista de sua imensa floresta tropical, sua biodiversidade inigualável, das riquezas minerais no subsolo, muita terra cultivável e cerca de 15% de toda a água doce do mundo. Atribui-se ao bioma amazônico uma função determinante para o equilíbrio climático no Planeta inteiro. Além disso, vivem na Amazônia centenas de grupos indígenas, em parte já dizimados ao longo dos séculos, que estão cada vez mais temerosos em relação às suas terras, tradições culturais e seu futuro. Eles clamam pelo seu direito à existência e por respeito. E a população de ribeirinhos, pescadores e coletores, sem esquecer as grandes aglomerações urbanas, onde se concentram muitos dos problemas daquela região. O futuro de todos está em jogo na questão amazônica.

     Atentos e sensíveis às demandas do ambiente e dos habitantes da grande Amazônia, os bispos católicos da América Latina já se pronunciaram em diversas ocasiões sobre os riscos de uma relação econômica predatória com a natureza.

     No entanto, seria um equívoco pensar que o Sínodo da Amazônia vai tratar somente de questões ambientais. O documento preparatório já amplia o horizonte, incluindo o ser humano na preocupação ambiental, pois ele não é um elemento estranho nem indiferente à questão ambiental. Desde o papa São João Paulo II o discurso da Igreja Católica usa o conceito de "ecologia integral", que contempla o homem como agente responsável e como vítima das questões eco-ambientais. Por isso, o Sínodo também tratará das muitas formas de pobreza e falta de perspectivas de futuro das populações da Amazônia. Da mesma forma, tratará das migrações, da urbanização e dos povos originários e suas culturas, que merecem o devido respeito e consideração nas políticas sociais, econômicas e culturais. Nada disso é indiferente à missão da Igreja.

Por Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo
Voltar Topo Enviar a um amigo Imprimir Home