Outubro de 2019 - Crianças precisam de vida, vida em abundância!

     No dia 12 de outubro é celebrado o Dia das Crianças! Tempo em que muitos adultos compram brinquedos e outros presentes para as crianças e, da sua forma de pensar, sentem-se cumpridores do dever e resolvem mais uma questão de consciência. Mas, a necessidade da criança é muito mais grave! 

     Uma a cada quatro pessoas que passam fome no mundo é criança. Como são 815 milhões de pessoas passando fome, são duzentos milhões de crianças abaixo de 5 anos privadas das necessidades básicas de alimentação. Essa é a conclusão da Oxfam, uma confederação que atua em mais de 100 países na busca de soluções para o problema da pobreza e da injustiça. 

     Em nível mundial tal situação foi escancarada no dia 2 de setembro de 2015 quando o mundo todo viu as fotos de Aylan Kurdi, um menino sírio de apenas três anos, morto numa praia da Turquia. A crise migratória já matou milhares de pessoas do Oriente Médio e da África que tentam chegar à Europa para escapar de guerras, de perseguições e da pobreza.

     O corpo do menino apareceu em Bodrum depois que duas embarcações com imigrantes naufragaram. Pelo menos nove sírios morreram. As duas embarcações tentavam chegar à ilha grega de Kos. A foto virou um dos assuntos mais comentados nos diversos veículos da imprensa internacional – um registro emblemático da gravidade da situação. “The Guardian”, jornal britânico, disse que as fotos levaram para as casas das pessoas “todo o horror da tragédia humana que vem acontecendo no litoral da Europa”. O americano “Washington Post”  classificou a imagem de “o mais trágico símbolo da crise de refugiados do Mediterrâneo”. O mundo enfrenta a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, segundo organizações como a Anistia Internacional e a Comissão Europeia. E o drama continua.

     Mais próximo de nós, no Rio de Janeiro, a rotina de Ághata Vitória Sales Félix, de 8 anos, mini Mulher Maravilha (foto) que morreu ao ser alvejada por um tiro durante operação policial no Complexo do Alemão no dia 20 de setembro, era frequentemente interrompida pelo medo. 

     Ela já tinha perdido a sua aula de balé -  por causa da agitação dos combates de rua, as aulas tinham sido suspensas. Na manhã da terça-feira, 24 de setembro, sua mãe, Vanessa, contou a Fátima Bernardes, no programa Encontro, que Ághata tinha cada vez mais medo. É que a saraivada de tiros dura cada vez mais. Cada vez mais. “Agora tem muita bala. É uma eternidade”, disse a mãe de Ághata.

     Não há como não se solidarizar com essa mãe, com essa família, com essa comunidade, com as favelas, com o Rio de Janeiro e com o Brasil, que vai pelo mesmo caminho. Nas 763 favelas do Rio vivem mais de um 1,3 milhão de pessoas, de acordo com o Censo 2010. Com o discurso de salvar o Rio da criminalidade, seu governador Wilson Witzel põe em risco a vida de milhões de pessoas, todas pobres, a maioria negra.

     Só três dias depois, Witzel achou por bem responder aos apelos da opinião pública. E declarou: “Reduzimos em 21% os homicídios. Se nós não estivéssemos trabalhando da forma como as polícias estão trabalhando, teríamos hoje quase 800 pessoas mortas”.

     Mas a polícia do Rio já matou, só em 2019, quase 900 pessoas, segundo o Observatório da Segurança Pública. Entre os mortos estão 5 crianças, das 11 que foram baleadas. Isso não é política de segurança pública. Tem outros nomes. Pode ser interpretado como genocídio ou como extermínio porque mira num determinado grupo populacional: negros e pobres. Os dados do Atlas da Violência 2019 mostram que a taxa de homicídios de indivíduos não negros diminuiu 6,8%; entre as vítimas negras, houve um aumento de 23,1%.

     No Evangelho, Jesus pega uma criança e a coloca no meio da roda, dizendo: “O que vocês fizerem por esta criança, farão por  mim.” Pelo visto, a nossa sociedade, quer a nível mundial, quer a nível nacional, não está sendo aprovada neste teste. Vamos fazer da nossa sociedade uma sociedade mais humana, para que todas as crianças tenham vida, e vida em abundância.


Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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