Irmã Dulce: terceira canonização mais rápida da história

Desde o anúncio da canonização de Irmã Dulce, feito em maio deste ano, diversos acontecimentos marcaram a fé dos devotos da freira que será a primeira santa brasileira. Em cerca de quatro meses, a beata ganhou músicas, missas, dia especial e outras homenagens, em meio aos preparativos para a celebração


     Irmã Dulce, que em breve passará a ser chamada de Santa Dulce dos Pobres, foi uma mulher batalhadora, exemplo de vida e admirada também por pessoas não católicas. O que ela promoveu foi uma verdadeira obra de amor aos pobres e doentes. Sempre tão querida e respeitada, recebeu incentivo do povo baiano, de brasileiros de diversos estados e de personalidades internacionais para construir a sua obra. Foi uma realizadora, inspiração para que outras pessoas também batalhem por seus sonhos. Ela vai além de uma questão religiosa, é uma questão humanitária que transcende.

     A canonização de Irmã Dulce será realizada no dia 13 de outubro de 2019, no Vaticano. Regida pelo papa Francisco, a cerimônia ocorre durante o Sínodo da Amazônia. Além de Irmã Dulce, no mesmo dia, serão canonizados outros quatro beatos. A cantora Margareth Menezes, que é devota da freira, se apresenta no evento.

     Canonização - Irmã Dulce teve a canonização marcada após o Vaticano reconhecer dois milagres atribuídos a ela. O primeiro foi acatado em outubro de 2010, quando Irmã Dulce foi beatificada. O segundo foi reconhecido em maio deste ano.

     Os dois casos estão entre os três que eram analisados no Vaticano. Os relatos de milagre foram enviados pelas Obras Sociais Irmã Dulce, em 2014, após avaliação de profissionais da própria instituição, reunindo mais de 10 mil casos na sede da instituição, em Salvador.

     A canonização da beata será a terceira mais rápida da história (27 anos após seu falecimento), atrás apenas da santificação de Madre Teresa de Calcutá (19 anos após o falecimento da religiosa) e do papa João Paulo II (9 anos após sua morte).

     Fatos marcantes - O hospital fundado por Irmã Dulce tem atendimento 100% gratuito e cerca de duas mil pessoas são atendidas por dia na unidade médica. São mais de 2 milhões de procedimentos ambulatoriais por ano, 18 mil internamentos e 12 mil cirurgias.

     Desde criança praticou a caridade - Conta-se que, aos 13 anos, a menina começou a acolher em sua casa mendigos e doentes e transformou a sua residência em um centro de atendimento. Muitos se aglomeravam na porta da casa para receber a ajuda da pequena e, por esse motivo, o local ficou conhecido como “Portaria de São Francisco”.

     Era professora - Antes de ingressar na vida religiosa, se formou professora pela Escola Normal da Bahia, em dezembro de 1932. No ano seguinte, entrou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus e sua primeira missão como freira foi ensinar em um  colégio mantido pela sua congregação.

     Adotou o nome Dulce em homenagem à sua mãe - Ainda muito cedo, quando tinha apenas 7 anos, Irmã Dulce (cujo nome de batismo era Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes) perdeu sua mãe, Dulce Maria, a qual tinha 26 anos. Mais tarde, quando ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em 1933, e recebeu o seu hábito, adotou o nome Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe.

     Era devota de Santo Antônio - Após o anúncio da data da canonização de Irmã Dulce, o Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, contou que, no dia seguinte, haverá uma Missa na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses, em Roma. O local foi escolhido devido à grande devoção que Irmã Dulce tinha por Santo Antônio. “Era realmente um amigo que ela tinha, um confidente e, ao mesmo tempo, a quem ela recorria em suas necessidades”, ressalto o arcebispo. 

     Durante 30 anos, dormiu em uma cadeira de madeira - Em 1955, a irmã da futura santa brasileira, também chamada Dulce, passou por uma gravidez de alto risco e a religiosa rezou por sua saúde e recuperação. Assim, durante três décadas, dormiu na cadeira para pagar sua promessa em agradecimento à recuperação de sua irmã, mesmo enfrentando muitas dificuldades, devido a um enfisema pulmonar.

     Irmã Dulce só deixou de dormir na cadeira de madeira em 1985, aos 71 anos, após ser convencida por seus médicos a voltar a ter seu descanso noturno na cama, devido ao seu estado de saúde.

     Enfrentou graves problemas respiratórios - Nos últimos 30 anos de sua vida, a religiosa viveu com 70% da capacidade respiratório comprometida. Entretanto, isso não impediu que ela construísse e mantivesse uma das maiores e mais respeitadas instituições filantrópicas do país, uma verdadeira obra de amor aos pobres e doentes.

     Foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz - As obras da Irmã Dulce receberam diversos apoios e reconhecimentos. Tanto que, em 1988, a religiosa foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz pelo então presidente do Brasil, José Sarney, com o apoio da Rainha Sílvia, da Suécia.

     Teve dois encontros com São João Paulo II - Encontrou com o papa Paulo II em duas ocasiões em que o Pontífice visitou o Brasil. A primeira foi em 7 de julho de 1980, quando o então Papa visitou pela primeira vez o Brasil. O segundo encontro aconteceu em 20 de outubro de 1991. Nesta ocasião, João Paulo II quebrou o protocolo de sua agenda e fez questão de visitar Ir. Dulce, que já estava com a saúde debilitada, no Convento Santo Antônio. Cinco meses depois dessa visita, em 13 de março de 1992, o Anjo Bom da Bahia faleceu.

     Sua canonização é uma das mais rápidas da história recente da Igreja - Segundo destaca o site Obras Sociais da Irmã Dulce (OSID), sua canonização será a terceira mais rápida da história recente da Igreja, atrás apenas da santificação do papa João Paulo II (9 anos após sua morte) e de Madre Teresa de Calcutá (19 anos após o falecimento da religiosa).



Santa brasileira deixa legado de doação ao próximo


     As Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), fundadas pela futura santa brasileira em maio de 1959, oferece atendimento 100% gratuito e realiza mais de 11 mil tratamentos de câncer por mês. Irmã Olívia acompanhou o trabalho de Irmã Dulce para manter o hospital, que completa 60 anos, em 2019. Para ela, Irmã Dulce está orgulhosa, pois o propósito da instituição nunca fugiu dos desejos do Anjo Bom da Bahia, como Irmã Dulce também é conhecida. “Essa obra é um milagre. Até hoje continua sendo um milagre porque a gente vê um hospital muito grande, nessa quantidade que tem de pacientes e nunca faltou nada, uma medicação para o paciente. Porque ela sempre dizia: ‘essa obra não é minha é Deus, e o que é de Deus permanece e não vai faltar nada para ninguém’”, contou Irmã Olívia.

     Segundo Irmã Olívia, a futura santa escreveu uma carta pedindo para que o presidente da instituição, Doutor Ângelo Calmon de Sá não aceitasse que a obra tivesse convênios e atendimentos particulares. “A maior preocupação que ela sempre teve era com a porta aberta ao mais necessitados, que esse hospital, essa obra, jamais se desvirtuasse disso. Isso ela dizia verbalmente para todos os funcionários da casa, para os médicos, o conselho.” 

     Além do serviço médico, há outros setores que precisam de doações para que a obra continue atendendo os pacientes. No almoxarifado, por exemplo, ficam armazenados os produtos utilizados para o preparo das 10 mil refeições diárias. É uma média de 25 toneladas de alimentos por mês. “Quanto mais doações a gente consegue arrecadar, menos a gente tira da conta da instituição. Então, se a gente recebe mais alimentos, significa que eu deixo de tirar do caixa da instituição para comprar alimentos. Consigo direcionar o recurso que já está na conta para uma melhoria, uma reforma, para uma compra de equipamento”, contou a assessora de marketing Mariana Pimentel. A instituição conta com a colaboração de 10 operadoras e três telefonistas trabalhando para captar recursos para a obra. 



Construiu o maior hospital a partir de um galinheiro

     Na década de 1930, Ir. Dulce começou um trabalho assistencial nas comunidades carentes, sobretudo nos Alagados, conjunto de palafitas que se consolidara na parte interna do bairro de Itapagipe, em Salvador (BA).

     Conta o site das Obras Sociais Irmã Dulce que, em 1939, a religiosa invadiu cinco casas na Ilha dos Ratos, para abrigar os doentes que recolhia nas ruas de Salvador. Foi expulsa do lugar e precisou peregrinar durante uma década, levando os seus doentes por vários locais da cidade.
Em 1949, ocupou um galinheiro ao lado do Convento de Santa Antônio, após a autorização da sua superiora, com os primeiros 70 doentes. Hoje, no local, está o Hospital Santo Antônio, o maior da Bahia.

     Segundo assinala representantes das Obras Sociais Irmã Dulce, a iniciativa da religiosa deu origem à tradição propagada há décadas pelo povo baiano de que a freira construiu o maior hospital da Bahia a partir de um simples galinheiro.


Fonte: G1 Bahia
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