Dezembro de 2019 - Tempo de agradecer

     Quando eu trabalhava em Campinas, a família do Zezinho, um aluno do Fundamental 1, me convidou para jantar na Festa de Ação de Graças. O moleque gostava muito de mim, e eu aceitei o convite. Era só o pai, a mãe, o menino e a irmãzinha dele, além de mim. O pai da família era engenheiro agrícola, profissão que depois o Zezinho haveria de abraçar. Por motivo de trabalho, a família morou alguns anos nos Estados Unidos, de onde tinha trazido o costume de fazer a festa de Ação de Graças. 

     A mãe do Zezinho me contou que no exterior ela tinha aulas de inglês com um professor, que convidou a família dela para o Dia de Ação de Graças com os parentes dele. Eles aceitaram e, na hora da festa, ficaram sabendo que o professor, a cada ano, convidava a pessoa mais significativa que tinha conhecido. E, naquele ano, a mãe do Zezinho, aluna dele, tinha sido a pessoa eleita, o que a emocionou enormemente. Ela, simples aluna, tinha sido a pessoa mais significativa na vida do professor. 

     Desde então, a família do Zezinho passou a celebrar o Dia de Ação de Graças e, também, a convidar a pessoa mais significativa do ano para cear com eles. Naquele ano eu tinha sido o escolhido, porque sem dúvida o Zezinho devia falar muito de mim em casa, e por tabela acabei sendo eu a bola da vez. A gente nem sempre tem a exata dimensão da importância que acabamos tendo para outras pessoas.

     E assim, chegados que somos ao final do ano, nada melhor do que dar uma parada, e um olhar para o caminho percorrido, com tantas pequenas alegrias, pequenas tristezas, realizações, esperas e expectativas. Laura Pausini gravou uma música do Ricardo Cocciante, Io canto (Eu canto), que, traduzida do italiano para o português, diz no refrão: 

     As mãos no bolso canto.
     A voz em festa canto.
     A música na cabeça canto;
     Corro ao vento e canto.
     A vida inteira canto.

     A primavera canto.
     A minha prece canto.
     Pra quem me escutar
     Quero cantar,
     Sempre cantar

     Ricardo Cocciante tinha gravado a música com sucesso em 1978, e a Laura Pausini a regravou em 2006, com igual sucesso. Sinal, sem dúvida, da excelência e da validade da música.

     Nessa mesma linha de gratidão à vida, a brasileira Elis Regina, a argentina Mercedes Sosa, a americana Joan Baez gravaram da chilena Violeta Parra a música Gracias a la vida, que diz em determinado verso: 

     Graças à vida que me deu tanto
     Me deu o riso e me deu o pranto
     Assim eu distingo fortuna de quebranto
     Os dois materiais que formam meu canto
     E o canto de vocês que é o mesmo canto
     E o canto de todos que é meu próprio canto
     Graças à vida, graças à vida.

     Tudo isso me faz lembrar da prece que o escritor Michel Quoist, sacerdote francês, publicou no seu livro Poemas para Rezar, que tanto sucesso obteve também no Brasil:

     Obrigado, Senhor,
     pelos meus braços perfeitos,
     quando há tantos mutilados...
     Pelos meus olhos perfeitos,
     quando há tantos sem luz...
     Pela minha voz que canta,
     quando tantas emudeceram...
     Pelas minhas mãos que trabalham,
     quando tantas mendigam...
     É maravilhoso, Senhor,
     ter um lar para voltar,
     quando há tanta gente
     que não tem para onde ir...
     É maravilhoso, Senhor,
     amar, sorrir, sonhar,
     quando há tantos que choram,
     que se odeiam,
     que se revolvem em pesadelos,
     e que morrem antes de nascer...
     E sobretudo,
     é maravilhoso, Senhor,
     ter tão pouco a pedir
     e tanto para agradecer...
     Amém!

Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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