Dezembro de 2015 - O ano que não começou

     Zuenir Ventura escreveu "1968, o ano que não terminou". De fato,  1968 foi um ano conturbado no mundo e no Brasil.

     No mundo, porque já no mês de janeiro, na Guerra do Vietnã, os vietcongs começaram a atacar maciçamente os americanos no Ano Novo Lunar. Porque em abril e em maio foram mortos respectivamente os líderes Martin Luther King Jr. e Robert Kennedy, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos. Porque em maio eclodiram as revoltas estudantis nas universidades europeias e americanas. Porque em agosto, a então URSS (ou as tropas do Pacto de Varsóvia) invadiu a então Tchecoslováquia, que ensaiava a revolução do socialismo com rosto humano da Primavera de Praga de Alexander Dubcek.

     No Brasil, dominado pelo golpe militar, porque no Rio de Janeiro no mês de junho é realizada a Passeata dos Cem Mil, portentoso número para a época. E no mesmo mês em São Paulo o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) espera que o público se retire, e invade o Teatro Galpão, destruindo os cenários e espancando os artistas. No mês de outubro, 700 líderes estudantis são presos no 30º Congresso da UNE em Ibiúna. E em dezembro o Presidente Costa e Silva edita o Ato Institucional nº 5 (AI-5), manietando o congresso com "o golpe dentro do golpe", recrudescendo ainda mais a ditadura militar.
Isso para refrescar a memória.

     Enquanto isso, neste atual ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2015, em pleno dezembro, com o acolhimento do pedido de impeachment da presidente eleita, podemos dizer que se coroa o ano que nem começou. De fato, as promessas eleitorais não foram cumpridas. As ameaças imputadas aos concorrentes derrotados em eleição acabaram sendo implementadas por quem venceu as eleições. A economia paralisou e retrocedeu. A inflação e o desemprego cresceram. E o cinismo e a corrupção cresceram com enorme desfaçatez, como nunca antes na história deste País.

     E assim chegamos ao final de 2015 com a impressão de que este ano ainda não começou, porque o Brasil não cresceu, não produziu. Só pôde assistir quase que diariamente a um novo escândalo político a cada dia.

     Se este for a preço que esta geração deve pagar para acontecer a depuração institucional, para afinal termos um Brasil cidadão, fraterno e humano, que seja bem empregado este ano. Então, podemos dizer com propriedade a frase que está no Evangelho: "Quando virem acontecer essas coisas, levantem a cabeça, e ponham-se de pé, porque a libertação de vocês estará próxima". Então, terá valido a pena.

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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