Fevereiro de 2016 - Quem é o autor desse Evangelho?

     Será João, o filho de Zebedeu, como nos informa a antiga tradição? Importante é o testemunho de Santo Irineu, discípulo de São Policarpo, o qual, por sua vez, foi discípulo de João: para Santo Irineu e outros insignes Santos Padres da Igreja antiga o autor do 4º Evangelho é, sim, o João de que falamos. Aí surge a pergunta: João e o “discípulo amado” que aparece diversas vezes no Evangelho são uma mesma pessoa? João 21,24 parece confirmá-lo. Mas a questão é mais complexa.

     Pode-se pensar que Jo 21,24 (“Este é o discípulo que dá testemunho desses fatos e os escreveu”...) se refira mais propriamente e somente ao capítulo 21, o qual apontaria em 21,1 (“Depois desses fatos”...) para o capítulo 20 apenas, enquanto este, como o capítulo 21, traz as aparições do Ressuscitado. Assim manteríamos distintas as duas pessoas e respeitaríamos o testemunho de Irineu. Até 20,31 seria do evangelista João, que por diversas vezes fala do ‘discípulo amado’; o restante, até 21,23, do próprio ‘discípulo amado’ (fixão sobre fixão! – como veremos).

     Mas são duas pessoas muito diferentes. De João sabemos que “aparece nos Evangelhos como um homem ambicioso, com um temperamento explosivo, com um coração intolerante. Tão violento era seu caráter, que estava disposto a fazer desaparecer uma aldeia de samaritanos com fogo do céu, porque não o quiseram receber quando a caminho de Jerusalém (cf. Lc 9,54). Tão ambicioso, que pediu para ocupar com seu irmão os primeiros lugares no reino que Jesus estava por fundar (cf. Mc 10,35-37). Tão exclusivista, que uma vez proibiu alguém curar a um enfermo em nome de Jesus, porque não pertencia a seu grupo, o que lhe valeu uma repreensão por parte de Jesus (cf. Mc 9,38)” (Ariel Álvarez Valdés). E o ‘discípulo amado’? É o discípulo ideal, completo! Em 13,23-25 está em lugar de honra na ceia e é ‘confidente de Jesus’; em 19,25-27 está, único entre os apóstolos, ao pé da Cruz e recebe de Jesus a Maria por mãe; em 20,8 é o primeiro a crer; em 21,7 reconhece o Ressuscitado e dirige-se a Pedro para lhe indicar o Senhor. Foi observado que nesse Evangelho esse discípulo nunca foi repreendido por Jesus...

     Então, quem é afinal o ‘discípulo que Jesus amava’? “Não se trata de uma figura real, mas de um símbolo daquilo que deve ser todo verdadeiro seguidor de Jesus” (Ariel). Logo, ele é o grande modelo, o nosso ideal enquanto discípulos de Jesus! E nenhum dos evangelhos se mostra mais existencial que o de João: instaura-se nele um verdadeiro processo e se é forçado a uma tomada de posição, a uma opção a favor ou contra Jesus. Não se pode ficar indiferente... É chamado também, mais que toda a Bíblia, de ‘evangelho espiritual’ com “o sentido forte de ‘animado pelo Espírito’ ” (A. Jaubert). Vamos meditá-lo, contemplá-lo, ‘curti-lo’ e, depois, vivê-lo!

Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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