Março de 2016 - Jejum de palavras ociosas

     Os comentários da atriz Glória Pires durante a festa do Oscar bombaram nessas últimas semanas: “Eu não sou capaz de opinar”, “Eu curti, bacana”, “Sou ruim de previsões”. E deu como provável vencedor um filme que nem candidato era. Perdeu uma ótima oportunidade de ficar quietinha. Mas, segundo rezam as lendas urbanas, ao menos embolsou dez mil reais pelo “trabalho”.

     No mesmo campo dos comentários famosos, brilhou também o de um conhecido homem público a blogueiros alinhados: “Não tem neste país uma viva alma mais honesta do que eu, nem delegado, nem promotor do Ministério Público, nem empresário, nem na Igreja. Pode ter igual, isso sim.” E tenho dito. Ele tinha tido o cuidado de não convidar esses jornalistas para o triplex da praia, ou para a chácara de Atibaia, que, evidentemente, não pertencem a ele, apesar de ele ter ido à chácara, parece que, cento e dez vezes.

     No mês de dezembro, uma mulher pública, pontificou sobre a situação da saúde no Brasil: “E, agora, eu queria destacar uma questão, que é uma questão que está afetando o Brasil inteiro, que é a questão da vigilância sanitária: gente, é o vírus Aedes aegypti, com as suas diferentes modalidades: Chikungunya, Zika vírus.” Assim, num passe de mágica, o mosquito virou vírus. E o vírus, diz ela, tem “modalidades”. No dia seguinte, foi para Pernambuco. Chegou lá e inventou o ovo que voa e pica. O que disse a presidente: “O mosquito transmite essa doença porque ele coloca um ovo. Esse ovo tem o vírus que vai transmitir a doença”.

     Alguém tinha passado a essa senhora um folheto informando que o mosquito, macho ou fêmea, se alimenta de néctar. Mas que a fêmea tem uma dieta adicional: sangue, necessário à maturação dos ovos. E ela resolveu fazer, como se dizia na escola de antigamente, um “resumo com suas próprias palavras”.

     É evidente que esse senhor e essa senhora têm o enorme interesse de esconder, camuflar, enrolar. E os seus cabos eleitorais e funcionários se incumbem de multiplicar, para pegar os incautos. Então, vale tudo.

     Mas também nós, nos nossos círculos de relacionamento, falamos demais, e pior, sem termos certeza, prejudicando terceiros, que não podem se defender.  Para não pisarmos na bola, cabe aquela sequência de perguntas: “Eu tenho certeza absoluta do que estou falando? O que eu vou falar é proveitoso para quem vai ouvir? O que eu vou falar é respeitoso para com a pessoa de quem eu vou falar?”.

     Caso não tenhamos resposta afirmativa para essas três questões, o melhor é não falar nada, fazermos jejum de palavras ociosas, que também é muito bom para a tosse: “Seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não” (Mt 5, 37).

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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