Março de 2016 - Ainda sobre o autor

     Vimos em artigo anterior a relação entre João, filho de Zebedeu, e o “discípulo amado”, e o que tocaria no 4º Evangelho a cada um deles, pois se trata muito provavelmente  de pessoas distintas e muito diferentes. Hoje nos deteremos na figura do filho de Zebedeu, tendo já falado suficientemente do discípulo que Jesus amava.

     João (no hebraico Yohanan = Javé é propício) ocupou na comunidade primitiva de Jerusalém um lugar especial. Paulo o põe no grupo das “colunas da Igreja” (Gál 2,9). Em At 1,13, lista dos apóstolos, ele vem logo depois de Pedro, em 2º lugar. Está ao lado de Pedro na cura do paralítico (At 3,1-11). Estão juntos perante o Sinédrio (At 4,13.19). Os apóstolos enviam ambos à Samaria para comunicarem o Espírito Santo pela oração e imposição das mãos (At 8, 14-25). É interessante que, segundo o autor dos Atos, quem fala nessas passagens e “ocupa a cena” é quase só Pedro, enquanto que João tem pouca atuação própria. Por quê? Para este testemunhar? Quer ele lembrar as recomendações de Jesus que enviava os discípulos dois a dois? (Mc 6,7). Como diz A. C. A. Lemmers, “pode ser um indício do lugar importante de João na comunidade primitiva” (Dic. Enc. Da Bíblia, Vozes em coedição com Centro do Livro Brasileiro Limitada, 1971, c. 794).

Em Mt 4,21 e paralelos João e seu irmão Tiago foram dos primeiros chamados por Jesus, logo depois de Pedro e André. Os dois trabalhavam na empresa de seu pai Zebedeu, que certamente não era um pescador pobre do Lago de Genesaré (Mc 1,19-20), quando Jesus os chamou. Receberam de Jesus o apelido de Boanerges (= filhos do trovão), como aponta em Mc 3,17. Em momentos especiais Jesus se faz acompanhar por eles, além de Pedro: estão presentes na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37; Lc 8,51), na transfiguração de Jesus sobre o monte (Mc 9,2; Mt 17,1; Lc 9,28) e na agonia do Getsêmani (Mc 14,33; Mt 26,37). “Os impetuosos filhos de Zebedeu (Lc 9, 49.54) tiveram a ousadia de, seja pessoalmente (Mt 20,20ss), seja através de sua mãe (Salomé? cf.Mt 27,56 e Mc 15,40), querer garantir a sua posição privilegiada no reino de Deus, o que provocou a rivalidade dos outros apóstolos (Mt 20,24; Mc 10,41)” (Lemmers, ib., c.795).

     É curioso que no próprio Evangelho de João nunca o nome João é lembrado e só em 21,2 está a expressão “os filhos de Zebedeu” (como vimos, João é um deles).

     Lá pelo fim do século primeiro, entre os anos 90 e 100, a comunidade cristã de Éfeso, provavelmente, foi brindada com essa joia do Evangelho de João. Ela, como joia, pode enriquecer demais nossa quaresma 2016 e, muito mais, a Páscoa (segundo João, Jesus esteve três páscoas em Jerusalém, diferentemente dos sinóticos que só falam de uma). A todos os leitores do nosso Informativo desejo, portanto, uma FELIZ E SANTA PÁSCOA!


Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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