Abril de 2016 - “O Barquinho” não desliza mais como antes

     Tinha falecido um primo em Santos, e o meu irmão me deu a notícia. Por prevenção, levei os paramentos para a eventualidade de poder fazer a oração de encomendação do falecido. Mas a tarefa não se preanunciava fácil, porque a minha prima tinha migrado para outra religião, e a coisa vivia tensa entre ele e a esposa justamente por motivação religiosa, a ponto de entornar uma relação antes muito harmoniosa em todos os sentidos. Com a mudança de religião, ela tinha progressivamente se fechado em um mundo próprio, para tristeza e desgaste do esposo.

     Durante o velório, conversei com os familiares dele, que queriam a oração de encomendação. Só faltava conversar com a minha prima. Lá fui eu. Expliquei que íamos fazer a oração, e que ela não levasse a mal. Ela foi categórica: “Não me venha com história de Nossa Senhora e de santos”. “Pode ficar tranquila, pois a oração apenas faz alusão à Unidade e Trindade de Deus e à ressurreição de Cristo e à nossa ressurreição com Ele”. 

     Ao escutar atentamente ela respondeu: “Ailton, desculpe, mas também nisso divergimos, porque eu sou Testemunha de Jeová!”. Puxa vida! E eu pensava que ela fosse crente de outra igreja!

     Uma tia – que estava meio cá, meio lá, um pouco católica e outro tanto evangélica - me ajudou nas leituras bíblicas, e a coisa até que correu muito bem. Mas, acabada a celebração, minha tia me devolveu o ritual, e comemorou: “Ailton, vencemos!”.  Não havia como negar que até a oração pelo parente falecido tinha se transformado numa pequena disputa territorial entre dois exércitos concorrentes.

Se até num velório as diferentes visões de mundo fazem sentir o peso das coisas, muito mais no momento atual a crise política faz pesar as coisas nos grupos de trabalho, nas famílias, entre amigos, e nas redes sociais.

     As coisas estão tão tensas, que se algum desavisado começar a cantar “O Barquinho”, obra-prima da bossa-nova, composta por Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli e gravada com a suavidade da Nara Leão, Maysa e outras tantas divas da MPB: “Dia de luz, festa do sol, / um barquinho a deslizar, / no macio azul do mar, / tudo é verão. / Amor se faz / num barquinho pelo mar / que desliza sem parar...”, vai ser interrompido por uma multidão com as perguntas: “Barquinho comprado por qual empreiteira?”, “Barquinho visto deslizando no mar de qual triplex do Guarujá com elevador privativo, pago por qual outra empreiteira?”

Padre Ailton António dos Santos, pároco

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