Abril de 2016 - Confronto entre os três primeiros Evangelhos e João

     Trata-se do chamado Problema Joaneu, a saber, das divergências entre João e os três Sinóticos: como explicar o fenômeno? Hoje apenas começaremos a tomar conhecimento do problema. Posteriormente ofereceremos algumas pistas de solução para ele.

     1. Divergência didática e de conteúdo: Enquanto os três primeiros Evangelhos (sinóticos) nos mostram um Jesus apertado pelas multidões que querem ouvir a sua palavra e sentir os efeitos da sua ação poderosa, o evangelista João no-lo mostra, diversas vezes, conversando com pessoas particulares como Nicodemos, a mulher samaritana... E, enquanto o estilo dos sermões dos sinóticos é simples, popular, com frequentes parábolas, o de João se revela teológico e simbólico, como em 2,1-11 (núpcias de Caná) ou em 7,37-39 (festa das tendas).

     Os sinóticos expõem muitos episódios da vida de Jesus, ao passo que João refere poucos, que por ele são bem escolhidos para ilustrar ensinamentos. Dos 29 milagres dos sinóticos, João só relata dois, ou, segundo alguns exegetas, três: a cura do oficial régio (4,46-54), a multiplicação dos pães (6,1-13) e Jesus caminhando sobre as águas (6,16-21). Em compensação João traz outros cinco que os sinóticos ignoram: as núpcias de Caná da Galileia (2,1-11), a cura do paralítico (5,1-9), a cura do cego de nascença (9,1-7), a ressurreição de Lázaro (11,1-44) e a pesca milagrosa (21, 1-14). Foi observado com razão que João não refere nem mesmo um só caso de exorcismo, enquanto Marcos caracteriza a atividade de Jesus em 1,39 como pregar na sinagoga e expulsar demônios!

     E quanto às palavras de Jesus? São numerosos os discursos de Jesus relatados por João, mas deles os sinóticos desconhecem quase tudo.

     2. Divergência topográfica (onde as coisas acontecem): Segundo João, Jesus convoca os discípulos na Judéia (1,35-51) e nessa região ensina e batiza (3,22; 4,1-3). Nisso divergem os sinóticos: Jesus reúne os discípulos na Galileia (Mt 4,18-22), onde dá início ao seu ministério público (4,12.17).

     Para os sinóticos a atividade de Jesus se passa também na Galileia, tendo como centro Cafarnaum (Mt 4,13;Lc 4, 23; 10,15). No fim dessa atividade Jesus se move pela única vez para Jerusalém e aí se dá a sua Paixão, Morte e Ressurreição (Mt 19-28).Para João tudo se deu de modo diverso: a vida pública de Jesus se apresenta como um contínuo ir e vir entre o norte e o sul. O seu Evangelho no-Lo mostra várias vezes em viagem para Jerusalém (2,13; 5,1; 7,10), como também comparecendo várias vezes na Galileia (2,1-12;4,3.43-54; 6,1; 7,1-9; 21,1).


     No próximo artigo veremos as divergências cronológicas e teológicas e refletiremos sobre o fenômeno. Desejo aos leitores do Em Família boa continuação na riqueza desse Tempo Pascal!

Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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