Maio de 2016 - Lições das blitze

     O meu tio estava sendo velado em Campinas, e eu tive dificuldades de sair de São Paulo em tempo. Por isso, eu ia pela Rodovia dos Bandeirantes acima da velocidade, quando, pouco antes do segundo posto de pedágio, uma blitz da Polícia Rodoviária me parou, assim como a outros veículos. Mas, como eram muitos os veículos acima da velocidade, inevitável que os policiais não tenham conseguido parar todos eles. Eu fiquei entre os contemplados. Coisas da vida.

     Quando o policial estava lavrando a ocorrência, ele percebeu no banco traseiro a minha túnica e a minha estola, e perguntou: 

     - O senhor é padre?

     - Sim, respondi. Estou indo a um velório em Campinas, estou bem atrasado e por isso superei o limite de velocidade. 

     Confesso que nessa hora até acreditei que ele, por deferência ou por devoção, ia quebrar a minha. Mas ele, impassível, finalizou:

     - Então, seo padre, já houve uma morte, e não precisa o senhor com o seu excesso de velocidade provocar mais outras - E acabou de preencher a folhinha e me deu para assinar.

     Pouco depois do posto de pedágio, uma nova blitz me deteve pelo mesmo motivo. Mas daí eu não estava acima da velocidade. Eu ia pela primeira faixa à direita, tanto assim que não me foi difícil parar no acostamento. Assinei a ocorrência ali na hora. E depois recorri, justificando que sem dúvida o radar deveria ter flagrado, sim, mas a outro veículo mais à esquerda, e que o meu carro simplesmente tinha ficado entre o radar e esse veículo, mas que o meu andava dentro do limite da velocidade. E a minha justificativa para essa segunda ocorrência foi acolhida pelo órgão competente. Sobre a primeira não havia dúvida nem justificativa.

     Lembrei-me desses fatos porque nestes últimos meses tenho escutado repetidamente de gente que está crescidinha, a mesma lamúria infantil contra o juiz Sérgio Moro: “Por que só eu? E os outros meus coleguinhas?!” E batem o pé, e fazem beicinho. Só que, para sofisticar, mudam a frase para a seguinte acusação: “Por que essas investigações seletivas?!” E pensam que repetindo o mantra da palavra seletiva resolverão tudo. Muito bem faz o juiz Sérgio Moro, impassível, em canetar os espertinhos.

     E resta a nós torcer para que apareçam mais outros juízes Sérgio Moro para pegar muito picareta que se faz chamar “guerreiro do povo brasileiro”.

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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