Maio de 2016 - Confronto entre os três primeiros Evangelhos e João (parte II)

Retomando o artigo de abril, pretendo continuar tratando aqui do mesmo confronto,
agora sob o ponto de vista cronológico e teológico


1º Confronto cronológico

     Nos sinóticos a vida pública de Jesus dura 01 ano, no fim do qual Ele subiu para Jerusalém para a sua última semana, a semana da sua morte e ressurreição. É a semana da sua única Páscoa em Jerusalém. Para João, ao invés, Jesus comparece ao menos a 03 festas de Páscoa em Jerusalém: a “Páscoa de Nicodemos” (2,13), a “Páscoa da multiplicação dos pães”(6,4) e a “Páscoa da morte de Jesus” (11,55 + 12,1.12 + 13,1). Portanto, a vida pública, segundo João, durou 02 anos inteiros, sendo que o último meio ano se passou na Judeia e Jerusalém (desde a Festa dos Tabernáculos lembrada em 7,2 até a referida Páscoa da morte). Escolho mais um exemplo: se para os sinóticos Jesus morreu a 15 de Nisan, para João morreu um dia antes, a 14 de Nisan (“Se havia um dia inesquecível para os discípulos, devia ser justamente este”, lamentou A. Vögtle).

     Segundo Êx 12,6 a imolação do cordeiro devia ser a 14 de Nisan e o dia seguinte, dia da grande solenidade da Páscoa, devia ser de absoluto repouso. Para os sinóticos Jesus comeu normalmente a ceia pascal no dia 14 de Nisan, vindo a morrer no dia 15 de Nisan (Mt 26,17-20 par.). Já para João, Jesus morreu a 14 de Nisan, pois foi na ‘parasceve’, ou seja, na vigília da Páscoa (Jo 19,14-21). Deste modo a ceia narrada por João não foi a ceia pascal. Enquanto em Jerusalém era imolado o cordeiro pascal, Jesus morria na Cruz.


2º Confronto teológico

     O tema central dos sinóticos é o anúncio do Reino, diversamente de João em que é a autorrevelação do Filho de Deus ( centro dos seus discursos é o “Eu” de Jesus: ‘Eu sou o pão da vida’ em 6,35;  ‘Eu sou a luz do mundo em 8,12; etc.). O tema da vida eterna substitui, de certo modo, o do Reino dos sinóticos.

     Quem lê o Evangelho de João vê que desde o início Jesus é claramente reconhecido como Messias (1,29.35s.41;4,25s) e Deus (1,14s.49-51; 5,17s; 8,58; 9,36-39). Sua transcendência é sublinhada. Sua majestade se manifesta mesmo na Paixão-Morte. Jesus na Cruz é como um rei que atrai todos a Ele, diferentemente dos sinóticos que nos revelam um Jesus muito humano, especialmente Marcos. Sua messianidade se manifesta nos três primeiros evangelhos só pouco a pouco (Mc 1,24; 3,11; 8,27-29; 11,1-11; 14,62).

     Concluamos, dizendo que desde a antiguidade foram propostas várias soluções para o problema joaneu. Umas foram sendo rejeitadas, outras foram vistas como mais ou menos aceitáveis. No próximo artigo (junho) tentarei apresentar e discutir as várias soluções.
Meus votos para todos os leitores: tenham um lindo Mês Mariano. Sobre Maria o evangelista João escreveu coisas importantes...

Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas

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