Junho de 2016 - Como entender as relações de João com os sinóticos

     Podemos descobrir o porquê das semelhanças e, ao mesmo tempo, das divergências entre eles? Isso significaria encaminharmos uma solução para o famoso problema conhecido como ‘Problema Sinótico’.

     Esse problema preocupou desde tempos remotos os apologetas (defensores da fé). Pois certos círculos cristãos (como o dos ‘álogos’, de Gaio de Roma...) chegaram à rejeição do 4º Evangelho. Deles, antigos escritores como Clemente de Alexandria, Epifânio e Eusébio o defenderam, propondo a solução segundo a qual João teria querido completar os sinóticos. Durante e pelo final do século XIX e início do século XX surgiram duas soluções que foram também rejeitadas por suporem que o Jesus mais humano dos sinóticos é o único verdadeiro e não o Jesus superior que João apresenta. São as soluções da interpretação ou superamento (João teria querido interpretar, corrigir, superar os sinóticos); e a solução da substituição (João teria querido substituir com seu evangelho os sinóticos, lhes tomando o lugar). Defensor desta última solução foi H. Windisch.

     Maior consideração merecem as soluções da complementação (João suporia que os leitores conhecem os sinóticos e os quer enriquecer), seguida por autores antigos e modernos, entre estes por Th. Zahn, W. Sanday e Goguel; e a da independência, seguida por Lagrange, Büchsel, Wikenhauser e parece ser a melhor: João compôs um evangelho completamente autônomo e inteligível plenamente em si mesmo.

     “Depois dessa pesquisa, diz o exegeta alemão R. Schnackenburg, parece lícita a hipótese segundo a qual por detrás do Evangelho de João viva uma tradição mais antiga, a qual remonta até o tempo ‘sinótico’ ou ‘pré-sinótico’, com alguns pontos de contato com os sinóticos, ainda que independente”. 

     Olhando bem, precisamos ainda observar a diversidade interna de situação em João. Conforme diz Cothenet, uma é a situação do ministério público e outra a situação da História da Paixão e Ressurreição: “Sobre o primeiro ponto, as semelhanças são esporádicas, enquanto que a partir de João 12 se tornam sempre mais frequentes e contínuas: isso põe o problema de uma fonte específica da Paixão joaneia”.

     Bom é, para terminarmos, analisarmos o gênero literário: a quem escreve essa página parece que João partiu de dicas – sentenças, episódios -  quer sinóticas quer não, historicamente seguras e em espaço geográfico bem conhecido, e as meditou,  contemplou-as longamente, deixando seu coração, memória e imaginação voarem livremente, em clima de amor intenso pelo Mestre. Não foi ele, de fato, comparado com uma águia? No seu evangelho relatou tudo que, saboreando, experimentou. Ele parece estar nos convidando a imitá-lo...

Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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