Julho de 2016 - Evangelista dos símbolos

     João começa o seu evangelho com a expressão “No princípio...”, mesma expressão usada no início do primeiro livro da Bíblia, o Gênesis. E a partir de 1,19 distribui as ações de Jesus em uma semana, como que lembrando a semana da criação. E o faz até 2,12, tendo incluído nela as chamadas bodas de Caná da Galiléia, onde os símbolos se concentram de modo notável: o vinho enquanto abundante, o vinho bom e o inferior, o número 6 como número da imperfeição, as jarras de água para purificação, o tratamento mulher para Maria, a palavra hora... (penso em retomar esses símbolos no artigo seguinte, mostrando o que significam).

     Como diz A. Feuillet, João vê “nos sacramentos administrados pela Igreja um prolongamento dos gestos salvíficos de Cristo”: na multiplicação dos pães e no milagre de Caná, a Eucaristia; no episódio do paralítico e do cego de nascença, o batismo; no sangue e água que escorreram do lado de Jesus na Cruz, o batismo e a Eucaristia. No discurso do capítulo 6º Jesus fala de dois pães, que são a Palavra de Jesus e o Pão eucarístico. É João que nos oferece também a mais clara exposição do sacramento da Reconciliação ou Confissão no capítulo 20: Jesus ressuscitado sopra sobre os Apóstolos, dando a eles o Espírito Santo com o poder de perdoarem os pecados.

     Em Jo 2,21 Jesus fala de seu corpo glorioso como de um novo templo e em 7,37-39, lembrando o misterioso rio anunciado por Ezequiel, que nascia do templo (47,1), o evangelista fala dos rios de água viva que escorrerão do lado de Jesus na Cruz.

     Os milagres de Jesus, que nos três primeiros evangelhos são efeitos da sua bondade e obras de poder divino, são em João sinais, isto é, conduzem-nos a realidades superiores, invisíveis no mundo da fé. A multiplicação dos pães, por exemplo, remete-nos ao próprio Jesus como verdadeiro pão vindo do Céu. “A tempestade noturna depois da multiplicação dos pães (6,1-21) parece figurar as trevas nas quais se debatem as almas antes de encontrar seu Salvador; a loção dos pés representa as humilhações redentoras que se devem aceitar para participar dos bens divinos trazidos por Jesus; a noite na qual se enfiou Judas (13,30: era noite) é dupla, ao mesmo tempo física e espiritual”.

     A denominação “os judeus” (na realidade não se refere a todos os judeus, mas sim aos seus líderes) “encarnam as trevas e a hostilidade do mundo ao Verbo encarnado”.

     G. Zevini traz essa reflexão interessante a partir da obra de Antoine de Saint-Exupéry: “Não se vê bem a não ser com o coração; o essencial permanece invisível aos olhos. O símbolo não é uma simples imagem, é um vínculo entre as coisas visíveis e o Céu invisível do Criador”.

Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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