Agosto de 2016 - Um vocabulário característico

     Mesmo no interior de uma mesma língua as palavras podem ter significados diversos conforme as regiões ou ambientes. É o caso das diferenças entre o Brasil e Portugal. No mesmo Brasil, ainda, temos vocábulos próprios do Rio Grande do Sul ou do Nordeste que são desconhecidos nas outras regiões. E há um vocabulário próprio da Medicina, outro da informática... Algo análogo acontece com os Evangelhos: o vocabulário do Evangelho de João difere em boa parte dos já conhecidos Evangelhos sinóticos. Detenhamo-nos hoje no vocabulário do Evangelho de João:

     Fé (melhor: crer, pois João não usa o substantivo): Usa o verbo que mostra a fé como algo ativo, dinâmico, e é adesão e resposta a Cristo da parte do que crê. Com a fé respondemos à revelação apresentada por Jesus (em João, Jesus é sobretudo o revelador do Pai). Fé imperfeita é aquela que depende dos milagres como manifestação prodigiosa e para nisso.

     Obras: as obras do Pai e de Jesus são naturalmente positivas, enquanto as obras do ser humano são em geral consideradas algo negativo (ver 3,19-21). Aqui também elas não devem ser vistas apenas como algo espetacular, maravilhoso (ao falarmos dos sinais em João, isso ficará mais claro).

     Testemunho/testemunhar: João de certo modo substitui a palavra ‘Evangelho’ dos sinóticos pela palavra ‘testemunho’. “Jesus veio ao mundo para dar testemunho da verdade (18,37); Ele testemunha sobre o que viu e ouviu junto do Pai (3,11.32s); testemunha contra o mundo mau (7,7), e testemunha o que Ele próprio é (8,13s)”, VTB 1027. Mas o mundo incrédulo o rejeitou (3,11; 8,13). Outras testemunhas a favor de Jesus são: João Batista (1,6ss.15.19; 3,26ss;5,33-36), as obras do próprio Jesus (5,36;10,25), o Pai (5,31s.37s; 8,16ss), as Escrituras (5,39).  Quem não o aceita torna Deus mentiroso (1 Jo 5,9ss).

     Verdade: é tudo que Jesus ouviu do Pai e no-lo revelou, proclamou e testemunhou. A essa verdade aderimos pela fé. O mesmo Jesus Se diz ser a Verdade (14,6), sendo Ele a Palavra do Pai, e o Espírito é dito ser “Espírito da Verdade”, pois conduzirá os discípulos à Verdade plena (16,13).

     Mundo: pode ter em João três sentidos diversos conforme o lugar. Pode significar toda a obra criada (11,9;17,5; etc.), a humanidade (1,9.10.29, etc.) ou a realidade hostil a Deus, o mundo das trevas (1,10; 7,7, etc.), que lhe é característico.

     Glória: é ligada mais à ideia de peso, o que realmente algo pesa, que à de fama. O sinal das bodas de Canã foi o início da glória de Jesus (2,11). Ele não a recebe dos homens (5,41), mas do Pai (1,14; 8,54). O momento máximo da glória de Jesus é o da sua morte e ressurreição: o Jesus da Cruz é já um Jesus glorioso, diferente do que pensam os sinóticos.

     Bom estudo e meditação para todos! Na próxima vez continuaremos, se Deus quiser, esse mesmo assunto.


Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas

Voltar Topo Enviar a um amigo Imprimir Home