Outubro de 2016 - Comparando João com Paulo

João e Paulo são os dois grandes teólogos do Novo Testamento. Cada um, porém, marcado por experiência pessoal própria frente ao Cristo: enquanto Paulo conheceu uma “fratura” em sua vida no caminho de Damasco, quando Cristo lhe apareceu e ele sentiu sua vida se transformando, João iniciou e linearmente prosseguiu na descoberta do Mestre e de sua intimidade. Ambos amaram e foram fortemente amados por Jesus. As diferentes experiências pessoais deles deixaram marcas também diferentes nas respectivas doutrinas, sem falar da psicologia de cada um, por exemplo, do temperamento diverso de ambos.

     Paulo, um polemista, focalizou nos seus escritos a “nova criação” em Cristo, enquanto João foi mais um contemplativo em busca de “iluminação”, bem atento à revelação trazida por Jesus. Para Paulo, lembrando a “ruptura” de que falamos acima, há um antes e um depois; para João há um encima e um embaixo (o Verbo vem de Deus e depois volta para Deus, levando-nos consigo!). Os dois são teólogos da fé, mas Paulo vê esta fé como “princípio de vida”, enquanto João a vê como “ato de crer”, adesão pessoal a Jesus Cristo. Apoiando-se nos mesmos textos (Prov. 8,22s; Sir 24; Sab 7,24s), os dois falam da preexistência de Cristo, mas enquanto Paulo chama Cristo de Sophia (sabedoria), João o assimila ao Logos (Verbo, Palavra), que se torna carne e é o revelador. Paulo insiste na vida do crente “em Cristo” e João na habitação do Pai e do Filho no fiel. Enquanto Paulo, prezando a figura do moralista, apresenta categorias de pecados, João sublinha o pecado fundamental da incredulidade.

     Ambos se servem de um vocabulário jurídico: só que enquanto Paulo rompe com o sistema da lei, acentuando a justificação pela fé, João falará do processo do mundo (aqui com sentido pejorativo) contra Jesus e de Deus contra o mundo. A encarnação para Paulo é simplesmente uma etapa necessária em direção ao sacrifício redentor, que é o centro de sua teologia, ao passo que para João é muito mais: no Jesus de Nazaré ele descobre os reflexos da glória e da divindade do Cristo.

     Comparar esses dois gigantes um com o outro é honrá-los reciprocamente. Ao compor com a ajuda do Espírito nosso próprio itinerário de vida espiritual, não poderemos omitir a riqueza trazida por ambos a fim de saboreá-la e nela crescermos para depois levá-la aos outros.

     Em italiano fiore ou, reforçando, fior fiore são um modo de indicar a parte melhor de algo. Colocamos, então, as palavras de Orígenes, na bela tradução italiana de G. Zevini, sobre o evangelho de João (deixando agora Paulo de lado, pois o foco nesse artigo é João): “Ci sia permesso di affermare che il fiore di tutta la Sacra Scrittura è il Vangelo, e il fiore del Vangelo è il Vangelo di Giovanni”. Belo, né?


Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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