Dezembro de 2016 - Duas avós e um avô

     À Paróquia veio a consulta: será que a daminha do casamento poderiam ser as avós da noiva e do noivo?! Convenhamos que isso é raríssimo, mas de forma alguma proibido. Curioso, antes da celebração, procurei o noivo para saber daquela história. Simples e profunda. Os pais da noiva tinham se separado quando ela era adolescente. E ela, com a mãe, foi morar com a avó. O pai tinha sido sempre ausente. Depois, a mãe veio a falecer. Ficaram ela e a avó. Pois agora, para o casamento, a noiva não ia querer criar caso: e na hora de entrar na igreja, ia entrar com o pai. Mas queria mesmo dar todo o destaque e importância para a avó, que tinha sido tudo na vida dela. E na hora das alianças, entrou a avó dela, toda solene, com a bengalinha e o par das alianças, enquanto a avó do noivo entrou com o livro da Bíblia. Comovente.

     Uma semana depois, veio a decisão do campeonato brasileiro de futebol, e a declaração do Jailson, o goleiro do Palmeiras, agradecendo à dona Nacife Marcelino, avó dele, que no começo de sua carreira, todo final de dia lavava e passava a única calça de goleiro que ele tinha, para que pudesse usar de novo no dia seguinte, até colocando-a na geladeira para secar mais depressa. Mais uma vez a figura da avó nas raízes da história de construção, de luta.

     E aí eu me lembrei de um antigo aluno meu, que ia se formar no segundo grau. Eu estava curioso por saber quem ele ia escolher como madrinha ou padrinho de formatura. Até apostava que fosse escolher a namorada, porque ele estava todo entusiasmado com o romance que, pelo que me constava, era o primeiro namoro da sua vida. Mas ele me respondeu, todo seguro, que o padrinho seria o avô dele. Surpreso, perguntei por que não tinha escolhido a namorada, entusiasmo da sua vida. E ele me respondeu: "Com todo respeito que ela merece, precisa ainda comer muito arroz e muito feijão para chegar à importância do meu avô!" De fato, poucos meses depois, de comum acordo, ele e ela desmancharam o namoro, que tinha sido bom por aquele breve tempo que tinha durado.

     Deus, quando quer criar um carvalho leva séculos. Quando quer uma abóbora, só umas semanas. Sejamos prudentes em escolher e erigir os dignos. Bom final de ano a todos.

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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