Janeiro de 2017 - Um cardeal, um pastor e um rabino

     Comparando a cidade de São Paulo com a cabeça de Cristo coroada de espinhos, na qual o centro da cidade era essa cabeça, e a coroa de espinhos a sofrida periferia, Dom Paulo Evaristo Arns, então cardeal de São Paulo, encomendou ao CEBRAP a pesquisa que resultou no livro São Paulo 1975 – crescimento e pobreza, retratando de forma objetiva as condições da população pobre de São Paulo, que se tornou um sucesso editorial sem precedentes, apesar da censura que vigorava na época. Mas não foi uma atitude isolada. Ele já tinha vendido o Palácio Episcopal Pio XII, no Sumaré, residência oficial dos arcebispos, para usar o dinheiro - cerca de US$ 5 milhões - arrecadado na construção de mais de mil centros comunitários na periferia da capital. Criou assim a Ação Periferia, na qual paróquias das regiões centrais da cidade apadrinhavam paróquias e comunidades nascentes nas periferias – a Paróquia São João Bosco, por exemplo, apadrinhou a comunidade do Jardim Ipanema na segunda metade dos anos setenta. Isso quer dizer que o que o atual papa Francisco tanto fala hoje, de uma Igreja em saída, hospital de campanha, dom Paulo vivia integralmente já nos anos 60 e 70, em plena vigência da ditadura militar no Brasil e nos países vizinhos.

     Com a ajuda do pastor presbiteriano Jaime Wright, a quem chamava de “seu bispo auxiliar”,  do rabino Henry Sobel e equipe de mais de 30 brasileiros, desenvolveu o projeto “Brasil: Nunca Mais”. Clandestinamente entre 1979 e 1985 gerou uma importante documentação sobre a história do Brasil. Foram mais de um milhão de páginas, contendo 707 processos do Superior Tribunal Militar, revelando a extensão da repressão política no Brasil, no período que vai de 1961 a 1979. 

     O livro disso resultante, publicado pela Editora Vozes, teve papel fundamental na identificação e denúncia dos torturadores do regime militar e desvelaram as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil.

     Para animar a sua incansável luta contra toda esperança, porque eram os anos de chumbo da ditadura, só o seu lema em latim “Ex spe in spem” (“De esperança em esperança”).

     Comparando-se a isso as dificuldades do momento presente, vamos convir que as nossas lutas são café pequeno. Portanto, coragem e esperança, sempre! Obrigado, dom Paulo Evaristo Arns.


Padre Ailton António dos Santos, pároco
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