Janeiro de 2017 - A importância, a beleza e os desafios de um livro original

     Estudamos nesses últimos anos os quatro Evangelhos, a parte mais importante e significativa da Sagrada Bíblia. Valeu a pena? Que o digam os leitores! Agora, em 2017, pretendemos estudar o Apocalipse, que tem forte parentesco com o Evangelho de João. Explicando melhor, João teria pregado o Evangelho, acontecendo logo redações parciais dessa pregação em aramaico.  A redação definitiva seria de um discípulo seu após sua morte. Esse mesmo discípulo teria possivelmente servido de secretário na redação das suas três cartas ainda durante a vida do Apóstolo. O Apocalipse seria do próprio apóstolo João. Assim se explicariam as diferenças entre os dois escritos, Evangelho e Apocalipse. De fato, o grego desse último é particularmente incorreto, pois João, que falava aramaico, teria tentado se exprimir em grego.

     É importante entender o Apocalipse? Ouçamos alguns estudiosos que o conheciam bem, a começar por A. Feuillet: “João soube tirar de um gênero literário cheio de artifício e de clichês convencionais uma grande obra prima”; D. Mollat: “É a obra de um profeta, o herdeiro e o maior dos profetas de Israel.(...) É a síntese de toda a Bíblia. (...) É a obra pessoal de um vidente elevado às mais altas revelações”; M.E. Boismard: “É a grande epopeia da esperança cristã, o canto de triunfo da Igreja perseguida”. Sob o ponto de vista literário, vejamos o que diz Andrej Tarkovski, que sonhava fazer um filme sobre o Apocalipse: “O Apocalipse é talvez a maior criação poética que tenha existido um dia sobre a terra (...). Talvez a coisa mais importante que contém é a esperança”.

     Cito, enfim, Gianfranco Ravasi: “Para a literatura, como não pensar nas alusões ou citações ou reproduções (ricalchi) do Apocalipse que aparecem nas obras de Blake, Bloch, Canetti, Eco, Hörderlin, Hugo, Lamartine, Lawrence, Michaud, Rosmini, Shelley e dezenas de outros escritores?”.  Logo, parece ter razão o autor do próprio Apocalipse, quando escreve: “Feliz quem lê e felizes os que escutam as palavras dessa profecia e observam as coisas aí escritas!”(1,3).

     Mas é um livro difícil, o mais difícil do Novo Testamento (A. Feuillet). “Quando se abre esse livro, se experimenta uma atração e uma vertigem. É um texto riscado (striato) com o sangue da história, mas é também uma obra de contemplação, imersa num halo de luz do qual emerge no fim uma cidade perfeita e ideal em que não se chora mais, em que a morte não tem mais moradia e sobre a qual se acende uma luminosidade transcendente (cc.21-22)” (G. Ravasi).

     Termino por hoje com uma frase de J. Péron: “O estudo sério de um Apocalipse é o melhor teste de uma verdadeira cultura bíblica”. Vamos fazer juntos esse tal teste, desde o início do ano novo?

Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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