Fevereiro de 2017 - As muitas tentativas

     A Pinacoteca do Estado, situada no bairro da Luz, em São Paulo, tem em seu acervo o quadro Bananal, do pintor Laser Segall, judeu brasileiro nascido na Lituânia. Esse quadro retrata, em meio às folhas de um bananal, a cabeça e o pescoço de um senhor negro e idoso, chamado Olegário, que fora escravo na fazenda de amigos do artista.

     Além de reduzido apenas à cabeça e ao pescoço do negro Olegário, esse espaço fica na parte inferior da tela, sendo todo o resto da paisagem preenchido com as folhas verdes das bananeiras. O negro Olegário é apenas parte da densa vegetação, pois, como na vida, nunca fora visto como pessoa, mas como parte disso ou daquilo, subordinado ao trabalho, mandado por seus donos.

     E o rosto de Olegário traz profundos sulcos na testa, denotando não apenas preocupação, mas também marcas do tempo e do trabalho servil. Seus olhos são pequenos e verdes como o verde das folhas do bananal. O nariz anguloso e achatado mostra enormes narinas abertas. A boca grande e grossa, mesmo fechada, expõe os lábios carnudos. Dois profundos sulcos cercam-na, partindo das narinas, e indo até o canto esquerdo e o direito. Seu olhar é ao mesmo tempo duro, desesperançado e sofrido. 

     Esta obra de Segall representa muito bem a sua preocupação em retratar a agonia social e psicológica sofrida pelo negro no Brasil. Ao pintá-la, ele afirmou estar se sentindo como membro da população negra, isolado e sozinho. Sem respaldo do poder público e sem uma interação com os vizinhos do bairro em que vivia. Aliás, Lasar Segall teve como temas mais significativos as representações do sofrimento humano: a guerra e a perseguição.

     Pois bem, em certa ocasião a Pinacoteca do Estado expôs junto com esse quadro os numerosos estudos detalhados que Segall tinha feito a lápis sobre papel, mostrando todas as possibilidades que ele tinha levantado, para depois chegar à versão definitiva. Mais: ele não era mais um pintor iniciante. Com efeito, ele, que na juventude tinha estudado artes na Lituânia, na Alemanha (Berlim e Dresden), tinha vindo viver no Brasil, aqui casado, voltado para a Europa, feito exposições em diversas cidades, e voltado para o Brasil. Ele pintou esse quadro em 1927, aos 36 anos de idade. Uma pessoa que foi comigo visitar a exposição se espantou com a série de estudos prévios para se chegar ao resultado final. E exclamou: “Eu pensava que era só o pintor chegar, e tchum! Saía o quadro! “

     Ainda neste começo de ano, faço votos de que você nunca desanime de ir tentando, se esmerando, até chegar ao produto final, definitivo. 


Padre Ailton António dos Santos, pároco
Voltar Topo Enviar a um amigo Imprimir Home