Março de 2017 - De novo, o exercício quaresmal

     Chega a Quaresma, época de jejum, de oração e de esmola. Temas sempre necessários, e incômodos, porque nos  obrigam a rever profundamente os nossos comportamentos, que já se tornaram mecânicos, e são destruidores. São temas sempre necessários, porque esbanjamos, perdemos ou desperdiçamos.

     Dados de 2011 apontam que se perdeu ou foi desperdiçado 1,3 bilhão de toneladas de comida, o que representa um terço da produção mundial. Isso, segundo a FAO, agência da Organização das Nações Unidas para a questão agrícola e alimentar, chega aos 750 bilhões de dólares. Enquanto mais de 840 milhões de pessoas em todo mundo são afligidas pela fome crônica.

     Muitas vezes alimentos perfeitamente comestíveis são descartados ou rejeitados por razões alheias ao seu valor nutricional.  Muitas vezes valorizamos apenas a aparência do produto, da fruta, da verdura: se ela está bonita, etc. Se ela está com uma manchinha, ou feia, enrugada, ou se a cenoura não tem aquele tamanho ou formato exato, ela já não serve para o consumo. Então, se rejeitamos o produto, o varejo acaba rejeitando-o, e o produtor nem colhe. Cria-se assim um mecanismo destruidor perverso.

     Por outro lado, para produzir sempre mais, derrubam-se novas áreas de florestas para dar lugar a culturas agrícolas e pastagens, exaurindo-se com isso as reservas de água. Isso implica necessariamente na morte de uma multidão de animais e plantas por causas diretas e indiretas. Se o alimento é perdido, a biodiversidade foi desnecessariamente empobrecida, os recursos naturais foram usados para nada e os animais e plantas foram sacrificados em vão.

     E é por isso que a Campanha da Fraternidade desta Quaresma nos vem falar dos seis biomas brasileiros - Pampa, Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado, Pantanal e Floresta Amazônica - que estão sendo devastados para ceder lugar a plantações e pastagens que são agressivas, pelos motivos já expostos e por outros.

     Portanto, esta Campanha da Fraternidade nos insere profundamente no espírito quaresmal, levando-nos através do jejum a sermos mais fraternos com nossos irmãos que sofrem fome e com o meio-ambiente, que pede socorro. 

     Feliz Quaresma, feliz Campanha da Fraternidade!

Padre Ailton António dos Santos, pároco
Voltar Topo Enviar a um amigo Imprimir Home