Maio de 2017 - Só três reais!

     Vamos chamá-lo de Roberto. De vez em quando, aparece por aqui. Faz acompanhamento psiquiátrico em centro de referência, recebe medicamentos com tarja. Mas nem sempre aguenta, e volta às drogas. Estava dessa vez muito acelerado, segundo ele, porque tinha prometido alimento para uns favelados, e eu tinha de resolver essa parada. Expliquei que não é bem assim. O pessoal da Pastoral da Solidariedade tinha estabelecido umas tantas regras, como entrevistar as famílias, cadastrá-las e entregar as cestas no primeiro sábado do mês. E eu, como pároco, tinha que ser o primeiro a respeitar essas regras, aliás de muito bom senso; e não ficar passando por cima dos critérios.

     Roberto me acusou de dizer que ele estava mentindo. Discordei: eu não tinha dito nada disso. Daí ele me pediu um par de tênis, ou uma roupa. Realmente ele estava em estado mais do que lastimável. Nunca o tinha visto em tal condição. Mas eu disse que também para isso, temos uma equipe do Bazar da Pechincha, e que essa tinha suas regras, e o bazar funcionava uma vez por mês de terça-feira. E que isso servia também para ele e para mim.

     Ele, não se dando por vencido, pediu vinte reais para comprar uns remédios. Estava cada vez mais claro que ele precisava, sim, de uns vinte reais. Mas não para remédio, evidentemente. Então, na frente dele, abri a minha carteira. Tinha só três reais! "Roberto, estamos no fim de mês, e também para mim é final de mês. Eu tive de comprar os meus remédios. E é isso que me sobrou. A vida é assim."

     Então ele me pediu uma Bíblia.  Eu já tinha dado umas três para ele, mas, infelizmente, dessa vez eu não tinha nenhuma para dar. Daí ele se rendeu, e foi embora. No dia seguinte, uma senhora da paróquia veio chorando me dizer que tinha encontrado Roberto dormindo na rua, todo sujo, e que tinha parado para conversar com ele. Ele então confessou que tinha mentido para o padre Ailton, pedindo dinheiro, mas que era para comprar pedra de crack.

     De minha parte, fiquei duplamente aliviado. Primeiro, porque Roberto tinha escolhido a mim para mentir, porque se fosse mentir para um traficante, teria sido muitíssimo pior para ele. Depois, porque eu tinha podido dizer não para Roberto com propriedade.  Por outro lado, fiquei penalizado por constatar quantas chances de vida Roberto não pôde aproveitar, e porque Roberto estava dormindo na rua, em frente à sua própria casa.

Padre Ailton António dos Santos, pároco

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