Junho de 2017 - Que vale escuro!

     Desalentado, tendo que recobrar o fôlego a cada tanto para adquirir coragem, ele se sentou à minha frente. Quarenta e dois anos, uma filha de 17 anos e outro filho pequeno. Depois de muita conversa com a esposa, tinha decidido deixar de ser pastor protestante, por discordar de algumas coisas que tinham se introduzido na sua igreja. Tinha escrito uma carta aos seus superiores comunicando o seu desligamento, e ao mesmo tempo pediu compreensão e ajuda para dois meses a mais, até arrumar novo emprego, e permanecer morando na casa de pastor por esse tempo.

     Tudo isso lhe foi negado. Nem sequer conseguiu acesso ao seu superintendente. Tentou abordar alguns outros ex-companheiros, mas tinham vindo ordens superiores para que ninguém o atendesse. Em outra cidade, onde já tinha trabalhado como pastor, conseguiu de um antigo obreiro um quartinho de fundos para se alojar com a família. Enquanto procurava outro emprego, conseguiu um bico como servente de pedreiro por quinze dias, porque afinal como pastor tinha ajudado braçalmente a construir uma igreja. Mas o bico acabou! 

     Pior que estar num mato sem cachorro é estar numa selva de pedra, numa metrópole sem ninguém. Via-se que ele tinha preparo cultural, era articulado, mas estava com as pernas quebradas, desarvorado, desnorteado. Talvez até não tivesse percebido alguma oportunidade que lhe tivesse aparecido. Mas quem entra em cheque, cai em crise, depressão, perde até mesmo a capacidade de reagir com esperteza. 

     Enquanto ele falava, eu me lembrava do caso de um padre jovem, que tinha entrado em depressão, e não encontrou ninguém ao próprio lado. Com a diferença de o padre ser solteiro, e esse pastor, chefe de família.

     Aquele ex-padre eu o acompanhei por uns quatro ou cinco anos. Que vale escuro, que noite escura! A esse pastor aconselhei-o a voltar ele e sua família para o interior do Paraná, para a casa da própria mãe, onde encontraria guarida. Às vezes as pessoas estão inteiraças e podem fazer prodígios, mas outras vezes nem têm fôlego e raciocínio para pedir ajuda.

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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