Julho de 2017 - O Apocalipse e o seu simbolismo zoomorfo (animais)

     A rosa - o exemplo é de U.Vanni - é uma planta, mas quando me refiro a uma mulher chamando-a poeticamente: ‘você é uma Rosa’, quero lhe dizer que ela é bonita como uma rosa. Ou se, descortesmente, chamar alguém de burro, anta, macaco, dá-se o mesmo fenômeno, negativamente. O símbolo é “uma transformação criativa da realidade”. Tratando de animais, uns autores denominam isso simbolismo teriomorfo, outros, simbolismo zoomorfo, recorrendo à língua grega. Aqui também temos os dois níveis ou aspectos: o realístico e o simbólico.

     As raízes do simbolismo zoomorfo do Apocalipse estão, em geral, no Antigo Testamento: todos os animais que aparecem no Apocalipse se acham nele e até, por vezes, com simbolização bem avançada. Veja-se, por exemplo, Apoc 13, 1-2, que se inspira em Dan 7,2-8.

     Com um único termo (zôon-pl.zôa) o Apocalipse se refere a ‘animais’ ou ‘seres vivos’, e assim aparece 20 vezes e com variadas funções: função doxológica, isto é, esses zôa exaltam a glória de Deus (4,8b), dão ordens (6,1-7), entregam aos anjos as copas da ira de Deus (15,7), adoram (19,4). Outro exemplo: o cordeiro, que tem características fora do real (5,7), como: tomar o livro (5,7), abrir seus selos (6,1ss), ficar irado (6,16), conduzir à pastagem (7,17), combater e vencer (7,14) celebrar núpcias (19,7.9), possuir um trono (22,9). Os animais no Apocalipse não agem como se fossem seres humanos, mas possuem sua capacidade de ação diversa da (capacidade) humana e frequentemente a supera.

     Útil é também ver com que frequência os animais aparecem nesse Apocalipse: o monstro ou besta ou fera, 38 vezes; o cordeiro, 29 vezes; o cavalo, 16 vezes; o dragão, 13 vezes (as únicas em todo o Novo Testamento); o leão, 6 vezes; a serpente, 5 vezes; a águia, 3 vezes; o pássaro, 3 vezes; os gafanhotos, 2 vezes.... Outros que no geral aparecem menos são: o urso, o leopardo, a pantera, o cachorro, a rã. 

     Como agem, o que fazem? Como bem observa U. Vanni, ao falar de animais, “a veia criativa do autor do Apocalipse se serve deste processo simbólico particularíssimo: observa, descreve e transforma as bestas e os animais, lhes atribuindo elementos diversos, prevalentemente em sentido negativo e mais raramente em sentido positivo”.

     Afinal de contas, o que mesmo exprimem no Apocalipse a presença e a ação dos animais? Exprimem uma força positiva ou negativa que ‘se injeta na história humana, acompanhando o desenvolvimento desta até a conclusão escatológica’. No âmbito da história há ‘um complexo de forças em ato, uma vitalidade que não pode ser barrada ‘, uma ação que ‘pressiona sobre os seres humanos e sua história, mas se acha sempre sob o controle de Deus’.

     Novamente agradeço ao professor U. Vanni, que tem sido com seus escritos minha fonte quase total.

Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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