Agosto de 2017 - O próprio ser humano se torna símbolo

     João, autor do Apocalipse, se revela muito interessado na história como acontecimento humano. Nela está inserido esse ser humano que chamamos homem e mulher.  Por ele, o ser humano, o autor sente verdadeira paixão, vendo-o como indivíduo e como relacionado com os outros (“o autor nunca deixa o homem - melhor dizendo: ser humano - isolado”). Gosta de tratar da convivência humana: as pessoas se comunicam, se congratulam, choram, combatem, vencem e são vencidas, distinguindo sempre, aqui também, o aspecto realístico e o aspecto simbólico. 

     Quatro realidades do Apocalipse são, segundo U.Vanni, apresentadas com notável relevo: a cidade, a mulher, a roupa e o culto. Vejamo-las rapidamente:

     Fala da cidade (a palavra aparece 27 vezes), mas é dada relevância maior para Jerusalém e Roma (Babilônia). Cidade, realisticamente, aparece, por exemplo, em 16,19 (‘cidade dos pagãos’) e em 14,20 (‘fora da cidade’). Já, tratando simbolicamente das portas e muro de Jerusalém (21,15-21), “a transposição de significado típico da simbolização, não poderia ser mais explícita. De fato, a forma cúbica resultante da medida e suas dimensões enormes, desconcertantes se se permanece no nível do realismo humano, indicam ao invés, num nível novo e superior, a perfeição absoluta da cidade”. E as pedras preciosas mostram “o valor que se irradia, uma preciosidade reluzente, como as pedras preciosas”. E Jerusalém “é adornada como uma noiva” (21,2), “a esposa do Cordeiro” (21,9). Quanto a Roma? “Roma se torna um tipo de atualização de Babilônia, um tipo que tende a se reproduzir na história, não menos que Jerusalém” (Vanni).

     A mulher: são 19 as ocorrências da palavra gyné (mulher), quase todas ‘com um impulso para a simbolização’. Sendo características mais próprias da mulher amar, sofrer, doar-se, ser mãe, essas características estariam projetadas positivamente pelo autor na mulher vestida de sol de 12,1-17. Já quanto a 17,3-21 temos o simbolismo inverso sobre Babilônia, a grande prostituta: sua beleza se torna luxo, fascínio provocante; pela sua maternidade ela se torna mãe de todas as prostitutas.

     A roupa: indica “a situação da pessoa, mas quase projetada, podemos dizer, para o externo da pessoa em função dos outros que podem percebê-la”. O assunto ‘roupa’ aparece 24 vezes.

     O culto: falamos da convivência humana no início; agora falamos da convivência com Deus na cidade. O assunto aparece quando o autor lembra o templo (16 vezes), o altar (8 vezes), o candelabro (7 vezes), a cítara (5 vezes), etc. As cenas litúrgicas, na quase totalidade, acontecem no Céu e seus protagonistas são os quatro seres vivos, os anjos, os anciãos. Sacerdotes são os próprios cristãos.

     * Quase tudo nesta coluna o devemos, novamente, ao Prof. U. Vanni. 


Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas

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