Setembro de 2017 - Algumas pistas que ajudam

     Tendo estudado os vários tipos de simbolismo (dos números, cromático, teriomorfo, etc.), gostaria de oferecer agora algumas pistas que nos levam igualmente a uma melhor compreensão do Apocalipse. Ei-las:

     1. O mesmo autor do Apocalipse vai dando, no correr da obra, a equivalência de vários símbolos que utiliza: 1,20; 4,5; 5,6.8; 17,9.12.18; 19,8...

     2. Ter presente que as figuras e símbolos apocalíticos nem sempre são imagináveis, especialmente para nós ocidentais nesse nosso século, muito lógicos. Por exemplo: tornar brancas no sangue as vestes (7,14), a besta ou fera com 10 chifres e 7 cabeças (13,1), as caudas dos cavalos que parecem serpentes com cabeças (9,19), etc. 

     3. No Apocalipse supera-se por vezes a imagem: apresenta-se sem mais a coisa significada. “A gente não mais permanece a imaginar os 7 chifres do Cordeiro (5,6) ou as 7 cabeças do dragão (12,3): veem-se sem mais o Cordeiro na sua majestade soberana e o dragão em todo o horror de seu poder maléfico”.

     4. O Apocalipse de João se situa numa época histórica bem precisa, o que contribui grandemente para a sua interpretação. É uma época de perseguição religiosa, a perseguição de Roma aos primeiros cristãos. Assim, por exemplo, a Babilônia é Roma, a cidade das 7 colinas (17,9) simbolizadas nas 7 cabeças da besta (há a besta marítima, porque subiu do mar, que simboliza o Império Romano, e a besta terrestre que simboliza o ‘poder ideológico e religioso’, o sacerdócio pagão, respectivamente em 13,1-10 e em 13,11-18: são instigadas por satã). Do mesmo modo, o conhecimento da história das 7 cidades da Ásia Menor às quais se dirige o vidente do Apocalipse nos ilumina sobre a linguagem e o conteúdo das 7 cartas: a vigilância pedida em 3,3 (“Se não vigiares, virei a ti como um ladrão”) se relaciona provavelmente com o fato de a cidade de Sardes ter sido conquistada de surpresa por duas vezes (por Ciro em 549 a.C. e por Antíoco I em 218 a.C.); a referência à nudez e às vestes brancas (3,18), escrevendo à Igreja de Laodiceia, não aponta para as célebres fábricas de roupas e lã preta que essa cidade possuía? 

     5. O conhecimento da Santa Escritura, sobretudo do Antigo Testamento: pois as alusões ao AT são frequentes. Segundo Wescott-Hort, dos 404 versículos do Apocalipse 278 trazem alguma alusão ao AT. Exemplificando: em Apoc 15,2-4, os que triunfaram sobre a besta aparecem à beira de um mar de cristal e cantam o Cântico de Moisés (ver Ex 14,15), etc.

     6. O estudo de outros apocalipses, canônicos ou apócrifos: por exemplo, a cena do Filho do Homem sentado sobre a nuvem de 14,14, que realiza 1,7, depende de Dan 7,13; segundo os apócrifos Apocalipse de Baruc, 4 Esdras e outros, Babilônia indica a cidade de Roma.

     Bom aprendizado e muita alegria!


Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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