Novembro de 2017 - Rápida síntese doutrinal

     No Apocalipse Deus aparece ainda como o Deus solene e majestoso do Antigo Testamento (AT). A doutrina do Espírito Santo é nele apenas esboçada. No capítulo 13 os grandes inimigos do Povo de Deus, como bem notou Boismard, aparecem como uma caricatura da Santíssima Trindade (Dragão, 1ª e 2ª besta). Já a Cristologia (ensinamentos sobre Cristo) é talvez, segundo Bousset, a mais rica do Novo Testamento (NT): Jesus é o Primogênito dentre os mortos (1,5), o Primeiro e o Último (1,17), o que vive (1,18), o Santo e o Verdadeiro (3,7), o Princípio da Criação de Deus (3,14), o Verbo de Deus (19,13), o Leão da Tribo de Judá (5,5), o Cordeiro Imolado (5,6). Na visão inaugural Jesus se revela rei e sacerdote (1,12s). Mas também aparece como Rei Messias e Juiz vingador dos inimigos do seu povo como no AT.
Também a Igreja tem grande importância: ela é “o centro de interesse de todo o livro. Ela está verdadeiramente em xeque-mate na luta travada por satã contra Deus” (Boismard). Ela é a noiva ou esposa do Cordeiro (21,9), que é Cristo, e forma uma realeza de sacerdotes que reinam sobre a Terra (5,9s). Ela é ora simbolizada por uma mulher, ora por um templo, ora por uma cidade.

     O caráter litúrgico do Apocalipse é marcante. A liturgia é celebrada no Templo Celeste, antítipo do de Jerusalém: tem um Santo dos Santos (11,19), um altar dos holocaustos (6,9; 8,3; 14,18; 16,17), um altar que corresponde ao dos perfumes (8,3;9,13...). Notam-se frequentes doxologias (exemplo em 19,6-8), hinos (exemplo em 11,16-18), aclamações, como em 4,8, por exemplo, talvez tomados da liturgia celebrada na Igreja primitiva ou mesmo imitações desta. O grito do aleluia, bem presente no Apocalipse (exemplo em 19, 1.3.4.6), é um empréstimo da liturgia judaica e não se encontra em nenhum outro lugar no Novo Testamento. 

     O Apocalipse de João pode ser dito com razão uma releitura do AT à luz do acontecimento cristão. Como escreveu A. Feuillet quanto a isto, “não existe no NT livro mais interessante e mais sugestivo”. Para Wescott-Hort, sobre 404 versículos que tem, 278 comportam ao menos uma reminiscência do AT.

     Urge salientar ainda que o Apocalipse nos revela o significado cristão da história. O presente é explicado em função do futuro. E o acontecimento final (escatologia) ilumina os acontecimentos do presente. Mas o verdadeiro Senhor da história é Cristo Ressuscitado, não o imperador romano! Notável a presença dos anjos e do demônio: o poder desse último já está mortalmente ferido...

     Em todo o livro sobressai, finalmente, a mensagem da esperança: seu autor queria confortar o coração dos cristãos perseguidos naqueles tempos, mas também no nosso. Nosso Brasil está necessitando enormemente dessa esperança! Como com os primeiros cristãos, Cristo glorioso está conosco: enchamo-nos de esperança!

Padre Alcides Pinto da Silva atua na Obra Social São João Bosco, em Campinas
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