Março de 2018 - Uma certa faxineira de hospital

     Dona Rose, sempre muito simpática, arrumada, penteada, levemente maquiada, entra para fazer a faxina no meu quarto de hospital. Dessa vez, encontra-me visitando uma senhora que, como ela, também é pernambucana. Trocam informações de como fazem as receitas das comidas típicas. Dona Rose teve quatro filhas, das quais a mais nova faleceu parece-me que aos quinze anos. Mas agora ela tem de novo quatro filhas.

     É que ela com outra senhora acompanhou à maternidade uma jovem que estava grávida e ajudou a providenciar o enxoval para a criança. Mas alguma coisa lhe dizia que aquilo não ia dar certo. E por isso deixou com a senhora nome e telefone para alguma necessidade. E três meses depois recebeu dela um telefonema: fazia três dias que na casa vizinha ela não via movimento de gente, nem entrando nem saindo, e só ouvia o choro da criança. Dona Rose correu para lá. Bateu na porta, na janela... Ninguém respondia. Foi para a rua, e pediu a  uma moçada que estava lá, para que a ajudassem a arrombar a porta. Os jovens se espantaram. E ela disse: “Eu assino o BO”.

     Arrombada a porta, se depararam com  um quarto todo bagunçado, garrafas e garrafas de bebida espalhadas, os pais drogados dormindo, e a criança chorando, toda coberta de vômito, cocô e urina. Levou o bebê para casa, e junto com a filha deu banho na criança, cuidou dela, e se apresentou ao Conselho Tutelar.

     Hoje, passados seis anos, tem toda a documentação em dia, e é mãe de direito da menina. A garotinha conhece a mãe que a gerou mas diz: “Minha mãe é a senhora, que me criou e cuida de mim”. Dona Rose me mostra a foto da menina no celular: toda charmosa e feliz.

     Neste início de ano escolar, a menina chegou em casa de volta da escola, cheia de coisa para contar: “Mãe, hoje eu tive aula de inglês. E aprendi que branco é white, preto é black, vermelho é red, verde é green e amarelo é yellow, e azul é blue”.

     Estamos na Quaresma, tempo de conversão. Tempo de volta para Deus e de amor mais direto aos nossos irmãos. Que o exemplo de Dona Rose nos inspire a termos um amor destemido, autorizado, que chegue às consequências concretas, e que gere muita vida ao nosso redor. Que saia do casulo, ou sepulcro escuro da morte, e seja de ressurreição. Dona Rose, 56 anos, faxineira de hospital, e pernambucana arretada.

     Boa Páscoa da Ressurreição do Senhor para todos.

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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