Maio de 2018 - A notícia incompleta

     O assalto a um ônibus no Jabaquara, numa avenida paralela à Rodovia dos Imigrantes, no limite entre São Paulo e Diadema, em 19 de abril, terminou com três mortos e quatro feridos. Os mortos foram um policial militar de folga, um advogado recém-formado e um dos assaltantes. Outros dois assaltantes (ou apenas um?) conseguiram fugir. A notícia do crime invadiu a mídia em geral. E os detalhes foram sendo revelados ao público.

     O policial militar Elton Ricardo Cunha, de 38 anos, foi sepultado na manhã do sábado seguinte, no Cemitério Municipal de Pirassununga, interior paulista, sua cidade de origem. Cunha estava na corporação havia 15 anos e atuava na Praça Roosevelt, no centro da capital. Era casado há três anos e não tinha filhos. Morreu em seu dia de folga, ao trocar tiros com assaltantes que invadiram o ônibus onde eles estava, para fazer um arrastão. 

     Durante o enterro de Cunha, o coronel da PM Telmo Araújo, comandante da Região Central de São Paulo, defendeu a ação do policial, que reagiu ao assalto, segundo testemunhas. “Somos formados para defender a população. Mesmo estando em folga, o policial se sente na obrigação de cumprir seu juramento mesmo com sacrifício da sua própria vida”, afirmou o coronel, que destacou ainda o empenho do cabo na corporação.


Sonhos interrompidos

     Outro passageiro, Felipe Fuschi Amaro, de 24 anos, foi baleado e morreu no tiroteio no ônibus. Levou um tiro no tórax e chegou a ser levado para o hospital, mas morreu. E, à medida que a imprensa colhia as informações, a população ia se comovendo mais. Ele era advogado. Tinha acabado de receber a carteirinha da OAB e começaria a trabalhar na semana seguinte em um escritório de advocacia. Já havia comprado até a roupa para o trabalho novo. Ele tinha se formado em direito pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) no fim do primeiro semestre do ano passado. Enquanto não conseguia um emprego na sua área, trabalhou como motorista de Uber, para levantar uma grana. Torcedor fanático do Corinthians, deixou mulher e uma filha de nove meses. A família vivia em Diadema. Ele queria abrir o próprio escritório e estudava para se aprofundar em direito tributário. Mas o maior sonho, mesmo, era ser delegado.

     O  outro morto, Damião Barbosa Sousa, 32 anos, foi reconhecido pelo motorista como sendo um dos assaltantes. Já tinha passagem na polícia por roubo. Foi morto durante a troca de tiros. E aqui acabam as informações da imprensa. Evidente que ficou faltando mais informação sobre este último falecido. Fiquei sabendo de detalhes pelo Felipe, técnico de enfermagem da clínica de hemodiálise que eu frequento, e mora Jardim Campanário, mesmo bairro que os familiares de Damião, em Diadema.


Rumos contrários

     Os pais e demais familiares  de Damião são assíduos frequentadores da igreja evangélica do bairro. Têm destaque na comunidade. E várias vezes conseguiram arrastar para lá esse filho mais afastado. Só que, infelizmente, segundo o técnico de enfermagem, o outro lado foi mais forte. Apesar da constância, da perseverança, apesar dos exemplos da família, não foi o rumo que tomou aquele filho. Para as famílias dos dois primeiros mortos, além da irreparável dor, ficou também um orgulho dos próprios filhos mortos. Para essa terceira família, tão honrada quanto as outras duas, ao invés, só sobrou a confusão e a desolação.

     E, condoído, o Felipe, que o conhecia de vista, dizia: “Infelizmente, parece que não deu tempo de ele abrir os olhos.”

     É justo que sintamos a dor dos familiares do policial morto, é nobre que nos compadeçamos do luto dos familiares do jovem advogado assassinado. Mas, enquanto não conseguirmos também sentir a dor, a vergonha, a sensação de fracasso dos familiares do assaltante, ainda não teremos alcançado um coração plenamente humano. Teremos ainda um coração de pedra, em vez de um coração de carne.

     Vamos continuar rezando por essas famílias, sem julgamento, apenas confiando na misericórdia de Deus, que é mais sábia que as nossas tão pobres e toscas sabedorias.

Padre Ailton António dos Santos, pároco

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