Setembro de 2018 - O que temos além daquilo que já recebemos?

     Fiéis da vizinha Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na Vila Leopoldina, assistiam famílias necessitadas da favela da Vila Humaitá, localizada no território da mesma paróquia. Um jovem, filho de uma dessas famílias assistidas, se envolveu no mundo das drogas e contraiu dívidas com os traficantes, e não as quitava. Esses “credores”  decidiram fazer “justiça”. Foram e cortaram as mãos e os pés do rapaz, e atearam fogo ao corpo. O fogo se espalhou, incendiou o barraco e se alastrou pela vizinhança.  Aquele corre-corre, carros-pipas, helicóptero. Como não poderia deixar de acontecer, a tragédia e a barbaridade chocaram profundamente os paroquianos nossos vizinhos, como aliás chocam também a nós e a qualquer um. 

     Não estamos falando de alguma tragédia perpetrada pelo Exército Islâmico na longínqua Síria ou no Paquistão. Estamos falando de algo ocorrido na Zona Oeste, território próximo à nossa realidade. Isso posto, cabe a pergunta trazida por um senhora que participava da assistência a essas famílias: o que nos distingue do submundo cruel desse jovem carbonizado e dos traficantes? Em outras palavras, em que somos melhores do que aquele rapaz carbonizado e dos traficantes? A resposta não está nem nos nossos esforços, nem nas nossas boas intenções, nem na nossa formação. O que nos separa é simplesmente o berço em que nascemos, sem nenhum mérito ou escolha da nossa parte. Como já dizia o Apóstolo Paulo: “O que temos além daquilo que já recebemos?”. Os psicanalistas vão dizer que o que separa a civilização da barbárie é uma película tão fina quanto uma camada de verniz.

     Isso mostra a importância do ambiente circunstante sobre nós, que aí vivemos imersos. Caso o ambiente se volte para uma direção ou para outra, uma nação que ao longo da história tinha produzidos numerosos gênios musicais como Bach, Beethoven, Mendelssohn, e tantos outros brilhantes escritores e cientistas, em certo ponto da História produziu o monstro do nazismo e suas bestas feras. Dê aí a importância de uma ação conjunta para produzir em toda a sociedade um ambiente construtivo, mecanismos positivos e saudáveis para o maior número de pessoas, que funcionem como uma rede de proteção sobre o abismo cavernoso sempre pronto a devorar a todos nós. 

     E o Brasil, como ambiente, não é positivo e saudável. O nosso país é um dos campeões mundiais em injustiça social, um dos piores países na questão da distribuição de rendas, a diferença entre os poucos muitos ricos e a grande massa de muitos pobres.

     As comunidades religiosas, as paróquias, estabelecem iniciativas e mecanismos de mútua ajuda, de distribuição de cestas básicas, o que não é desprezível. Mas é insuficiente para eliminar o fosso que separa os que têm dos que não têm. Nas eleições que se aproximam é importante que os cristãos priorizem a questão social entre os quesitos mais importantes para decidirmos em que candidatos e em que partidos vamos votar. 

     Vivendo no século XIX, no tempo da monarquia, Dom Bosco, sempre em busca de recursos para os seus jovens, dizia aos ricos: “Ou vocês doam recursos de boa mente, ou os miseráveis virão às suas casas pegar esses recursos com a faca nas mãos.”

     Nós vivemos no regime republicano, em que pelo voto decidimos os rumos e os métodos das ações políticas. E a política é a forma mais sublime de fazermos caridade, porque pelas políticas fazemos escolhas que podem beneficiar o maior número de pessoas. Não podemos nos acomodar! Vamos dar a nossa contribuição co-responsável.

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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