Igreja encomenda estudo sobre abusos de poder e clericalismo

Levantamento se baseia em mais de 38 mil documentos de 27 dioceses alemãs e foi conduzido por um consórcio de pesquisa formado pelas universidades de Mannheim, Heidelberg e Giessen durante quatro anos

     “O abuso sexual é antes de tudo também abuso de poder”. É o que afirma o estudo independente encomendado pela Conferência Episcopal Alemã em uma equipe das Universidades de Mannheim, Heidelberg e Giessen sobre o tema dos abusos sexuais de crianças dentro da Igreja Católica em Alemanha, de 1946 a 2014.

     Vinte e sete dioceses do país participaram da pesquisa apresentada em 25 de setembro de 2018, em uma coletiva de imprensa da Assembleia Episcopal alemã em andamento em Fulda. O estudo, que levou quase quatro anos para ser concluído, fala de 3.677 menores abusados em 68 anos por sacerdotes, diáconos e membros de ordens religiosas. 62,8 por cento das vítimas são do sexo masculino. Três quartos tinham algum tipo de relação religiosa ou pastoral com os acusados.

     Quando o estudo fala de abuso de poder, ligando-o ao clericalismo, entende “um sistema autoritário em que o sacerdote pode assumir uma atitude autoritária de domínio na interação com pessoas não consagradas, dado que a sua função e sua consagração o colocam em uma situação de superioridade”. Segundo a análise, abusados reclamam da parte dos acusados e da instituição Igreja, a falta de uma admissão credível das próprias faltas e do próprio arrependimento. O levantamento registra pouquíssimas sanções de natureza eclesial contra os acusados e a prática da simples transferência, com o risco de recaídas.

     Os pesquisadores reconhecem progressos no trabalho de prevenção, que, segundo eles, pode “servir como modelo para outras instituições”. Neste sentido, elogiam os bispos alemães por terem encomendado tal pesquisa “que poderia servir como modelo para o necessário, e até agora negligenciado, estudo do abuso sexual em outros ambientes institucionais”. A iniciativa pode ser considerada “como um sinal de que a Igreja Católica lida com a questão de maneira autêntica e contínua e não apenas de forma reativa”.



Cardeal reconhece que abuso foi negado por muito tempo

     O presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, cardeal Reinhard Marx, reiterou com firmeza, que “o abuso sexual é um crime. Quem é culpado deve ser punido. Por muito tempo negou-se na Igreja o abuso, desviou-se o olhar e foi mantido escondido. Eu peço perdão por todos os fracassos e por toda a dor. Estou envergonhado pela confiança que foi destruída, pelos crimes cometidos contra as pessoas por parte de autoridades da Igreja e sinto vergonha pelos muitos que desviam o olhar, que não querem aceitar o que aconteceu e não têm pensado nas vítimas. Isso também se aplica a mim. Não soubemos ouvir as vítimas. Isso não deve permanecer sem consequências! As vítimas têm direito à justiça”.

     Os bispos alemães levarão o tema dos abusos ao Sínodo, em Roma.
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