Boa noite!           Domingo 21/10/2018     18:58

Outubro de 2018 - Sem medo de evangelizar os que não têm fé

Durante missa celebrada em 24 de setembro, na Praça da Liberdade em Tallin, na Estônia, papa Francisco pede aos fiéis para vencer o medo e deixar os espaços blindados, porque hoje a maioria dos estonianos não se reconhece como crentes

     Poderíamos justamente dizer que hoje se repete aqui o que São Lucas narra no início do livro dos Atos dos Apóstolos: estamos intimamente unidos, dedicando-nos à oração e na companhia de Maria.  Hoje fazemos nosso o lema desta visita: “Mostrai-Vos Mãe!”, manifestai-nos o lugar onde continuais a cantar o Magnificat, os lugares onde Se encontra o vosso Filho crucificado para, aos seus pés, podermos encontrar a vossa presença firme.

     O Evangelho de João aponta apenas dois momentos em que a vida de Jesus cruza a de sua Mãe: as bodas de Caná (cf. 2, 1-12) e o texto que acabamos de ler, ou seja, Maria aos pés da cruz (cf. 19, 25-27). Parece que o evangelista tenha interesse em mostrar-nos a Mãe de Jesus nestas situações de vida aparentemente opostas: a alegria de um matrimônio e o sofrimento pela morte de um filho. Enquanto penetramos no mistério da Palavra, Ela nos mostra qual é a Boa Nova que, hoje, o Senhor quer partilhar conosco.

     A primeira coisa que o evangelista ressalta é que Maria está firmemente “de pé” junto de seu Filho. Não se trata de um modo descontraído de estar, nem evasivo e, menos ainda, pusilânime. Está, com firmeza, “cravada” aos pés da cruz, expressando com a posição do seu corpo que nada e ninguém poderia movê-La daquele lugar. É assim que Maria Se mostra em primeiro lugar: junto daqueles que sofrem, daqueles de quem todo o mundo foge, nomeadamente os que são julgados, condenados por todos, deportados. Não se trata apenas de oprimidos ou explorados, mas estão diretamente “fora do sistema”, à margem da sociedade. Juntamente com eles, está também a Mãe, cravada nesta cruz da incompreensão e do sofrimento.

     Maria mostra-nos também o modo como estar junto destas realidades; não é dar um passeio ou fazer uma breve visita, nem se trata sequer de “turismo solidário”. É necessário que aqueles que padecem uma realidade dolorosa nos sintam a seu lado e da sua parte, de maneira firme, estável; todos os descartados da sociedade podem experimentar esta Mãe delicadamente próxima, porque, naqueles que sofrem, permanecem as chagas abertas do seu Filho Jesus. Ela aprendeu-o ao pé da cruz. Também nós somos chamados a “tocar” o sofrimento dos outros. Saiamos ao encontro do nosso povo para o consolar e fazer-lhe companhia; não tenhamos medo de experimentar a força da ternura e de nos envolvermos vendo a nossa vida complicada pelos outros. E, como Maria, permaneçamos firmes e de pé: com o coração voltado para Deus e corajosos, levantando os que caíram, erguendo o humilhado, ajudando a pôr fim a toda e qualquer situação de opressão que os faz viver como crucificados.

     É verdade que, às vezes, a abertura aos outros nos faz muito mal. E também é verdade que, nas nossas realidades políticas, a história do choque entre os povos permanece ainda dolorosamente viva. Maria mostra-Se como mulher aberta ao perdão, que põe de lado ressentimentos e difidências; renuncia a lamentar-se como tudo “poderia ter andado” diversamente, se os amigos de seu Filho, os sacerdotes do seu povo ou os governantes se tivessem comportado de outra maneira; não Se deixa vencer pela frustração nem pela impotência. Maria crê em Jesus e acolhe o discípulo, porque as relações que nos curam e libertam são aquelas que nos abrem ao encontro e à fraternidade com os outros, porque, no outro, descobrem o próprio Deus. 


Trecho de homilia de papa Francisco em Aglona, na Estônia
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