Março de 2020 - Quaresma: tempo de intensificar a comunicação com Deus

     Estamos abrindo a Quaresma, tempo forte que a Igreja nos proporciona. E a questão dos tempos tem uma grande importância. Quando éramos estudantes, por exemplo, parecia que estávamos entendendo as questões, as matérias. Mas só na época das provas e dos exames – a hora de a onça beber água - que realmente tomávamos consciência de todos os aspectos da coisa.

     A Igreja nos apresenta vários tempos fortes. O tempo de Advento e do Natal nos ajuda sobremaneira a revermos as nossas atitudes com relação à simplicidade, despertados pelo mistério do nosso Deus Jesus Cristo, que não se apegou ciosamente à sua igualdade com Deus, e, se desapegando, se esvaziando, se fez homem, igual em tudo a nós, exceto no pecado. Respirou as mesmas dificuldades que nós, amou com coração humano, se condoeu com sentimentos humanos. Para nós, que temos uma incrível tendência para nos fecharmos nos nossos probleminhas, fazendo deles maiores do que são, o Natal é um constante chamado a entrarmos em comunhão com as pessoas que estão à nossa volta, e com os outros, que estão mais distantes.

     Pois a Quaresma é um tempo forte de conversão. Constitui-se de quarenta dias, para lembrar os quarenta anos que o  Povo Hebreu, conduzido por Moisés, saindo da escravidão do Egito, atravessou o Mar Vermelho, cruzou o deserto, fez a Aliança com Deus no Monte Sinai e, entre rebeliões contra Deus e Moisés, tentações de desânimo e da vontade de voltar para trás, chegou à Terra Prometida. 

     Lembra também os quarenta dias de solidão de Jesus Cristo no deserto, antes da sua vida pública, dias em que Ele foi tentado pelo demônio, da mesma forma como o Povo Escolhido tinha sido tentado no deserto. Mas diferentemente do povo hebreu, que se rebelou contra Deus, Jesus Cristo no deserto renovou a sua Aliança com Deus.

     As tentações a que foi submetido Jesus Cristo são as mesmas tentações a que somos submetidos. A primeira tentação de Jesus é transformar as pedras do deserto em pão para saciar a própria fome. Portanto, a tentação de usar a própria força em favor de si mesmo, dos seus interesses, e não a serviço dos outros. E essa tentação nós vemos não só nos políticos corruptos que colocam o poder a serviço de si próprios, mas na nossa constante inclinação de sempre “tirarmos uma lasquinha” em nosso favor. E os outros que se danem!

A segunda tentação a que Jesus Cristo é submetido é a de se jogar do pináculo do Templo abaixo, para que os anjos o amparem. É a tentação da vaidade, porque era embaixo do pináculo do Templo que os doutores da Lei se reuniam para debater, e o povo se reunia para ouvi-los, e foi nesse lugar que Jesus debateu muitas vezes com os doutores da Lei, e sempre os derrotou. Portanto, era um lugar para a vaidade de Jesus se exibir e mostrar que Ele era melhor que os outros.  E nós temos uma vaidade incrível.

O cuidado com a vaidade

     Diz-se que a vaidade é tão grande, que só morre depois de quinze dias que o dono dela já foi enterrado. Fazemos questão de parecer, mais do que ser de verdade. Tornamo-nos escravos dos elogios dos outros. O que os outros vão pensar?!  Superamos a Gretchen em operações plásticas físicas e morais, para simplesmente aparecer. Mentimos de boca cheia, exageramos nas mídias sociais, puramente para sermos admirados. E, por dentro, continuamos miseravelmente vazios de conteúdo.

     A terceira tentação é a termos todas as riquezas da terra. E a nossa, que, como nenhuma outra antes, é capaz de produzir cada vez mais produtos e artefatos, é um manancial de consumismo.

     Os especialistas em Sagrada Escritura dizem que as tentações no deserto podem não ter acontecido assim exatamente, no começo da vida pública de Jesus, mas afirmam que se trata de um midrash, gênero literário que apenas cria uma cena para chamar a atenção do leitor para uma coisa que vai estar diluída ao longo de toda a narrativa. Dessa forma, Jesus foi tentado toda a vida, até a última hora, na cruz, quando poderia ter demonstrado o próprio poder saindo da cruz, e não o fez.

     Portanto, nessa Quaresma, vamos nós fazer uma experiência como a de Jesus - nos retirarmos para um deserto, que precisamos criar em torno de nós mesmos, para ouvirmos mais claramente a voz de Deus, nos afastando das outras vozes que nos distraem. Para nos propormos um exercício de jejum, que nos liberte de tantas necessidades que vamos criando em torno de nós. E para intensificarmos a nossa oração, para nos comunicarmos com Deus. Boa Quaresma! 

Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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