Maio de 2019 - Espírito de Páscoa, mesmo depois do ovo de chocolate


     O Evangelho de João traz um banquete para o qual Jesus foi convidado, e surge uma mulher que derrama em seus pés perfume avaliado em trezentos denários (o equivalente a trezentas diárias de um trabalhador diarista), e a reação de Judas diante do fato: “Que desperdício! Melhor que desse essa importância aos pobres!”. E João acrescenta que ele dizia isso não porque se preocupasse com os pobres, mas porque administrava a bolsa, e roubava o dinheiro. É lícito perguntar se João e os outros já sabiam disso, ou se colocou isso na redação do Evangelho só depois da traição de Judas, como vingança.

     E, já que estamos para perguntar, vamos continuar perguntando: e Jesus não sabia disso, ou ao menos não desconfiava? E, se sabia ou desconfiava, por que não tomou as devidas providências?  E, se não sabia nem desconfiava, será que era distraído ou ingênuo? 

     Por certo isso não passava despercebido da sua mente, como não passava que enquanto ele estava fazendo e ensinando o Lava-pés os discípulos estavam discutindo entre si quem deles era o maioral. E dizia para Pedro que ele haveria de negá-lo ainda antes que o galo cantasse. E dizia que um outro ia traí-lo. Diante de tudo, Jesus continuou seguindo a sua própria trajetória. Ele não precisava da adesão e da fidelidade de ninguém quem quer que seja. Ele fazia a sua parte, às custas do seu próprio sangue e da terrível solidão.

     Então, Jesus falhou no recrutamento, na seleção e no treinamento dos seus seguidores?! Ou ele foi profundamente sábio, assumindo que a natureza humana tem os seus limites, e que os limites das pessoas e da realidade não são motivos suficientes para nos demover da nossa entrega à missão! Afinal, “Deus disse, e assim foi feito”, e “Deus viu que era bom”, com pernilongo, enchente, seca, terremoto, vulcão, governo petista, governo tucano, governo bolsonarista e tudo!

     Custou muito para “cair a ficha” dos apóstolos. Praticamente, todas as aparições do Cristo Ressuscitado foram para dar bronca nos apóstolos – “Eu já não tinha dito isso?!” – para reanimá-los, confirmá-los e empurrar para frente. 

     Isso nos faz crer que até para Judas continuaria a haver lugar entre os doze, se ele não tivesse se desesperado. Porque, afinal, os outros, e Pedro entre eles, não eram em nada melhores que Judas. Em outras palavras, Jesus Cristo continuou a investir nos apóstolos. Não desistiu deles. E por quê? Porque confiava na excelência da semente lançada naquele chão. Porque confia na bondade da pessoa humana que, mais hora, menos hora, engata e pega no tranco, ou engata de mansinho, quando já menos se esperava.

     Portanto, ele quer contar conosco, apesar das nossas “pisadas na bola”, conosco, que tampouco somos piores que os apóstolos. E para nós também fica a mensagem de não desanimarmos dos nossos irmãos, de continuarmos a confiar na força da ressurreição, que tira do túmulo os que lá jaziam. Vamos superar as nossas decepções e tocar a bola para a frente.

     Vamos continuar a viver o espírito de Páscoa, mesmo depois de terminado o ovo de chocolate.

Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial

Voltar Topo Enviar a um amigo Imprimir Home