Julho de 2019 - A importância do apoio social na cadeia produtiva do Brasil

Quem trabalha em educação, está sempre se questionando sobre a qualidade do trabalho em busca de melhoras, e sobre a qualidade do resultado final, isto é, sobre a serventia de tudo aquilo quando os jovens, saídos da instituição de educação, estão lá fora enfrentando os desafios do mercado de trabalho

     Na primeira década deste século, eu trabalhava no bairro da Mooca, e a obra salesiana comportava uma editora, uma gráfica e um departamento de ensino profissionalizante gratuito que oferecia cursos de Computação e Técnicas Administrativas, e uma gama de cursos na área gráfica: Impressão em Offset, Acabamento, Desenho e Ilustração, Programação Visual Gráfica, Impressão Serigráfica. No curso de Computação e Técnicas Administrativas havia um conteúdo de Atendimento ao Cliente. 

     Anualmente participávamos da Expo Católica, com um stand com os produtos editoriais da casa. O evento ocorria de quinta-feira a domingo, no Expo Center Norte. O serviço de portaria e recepção era executado por modelos de uma agência contratada. Depois de uns quatro-cinco anos de Expo Católica, em uma reunião com os organizadores, eu pleiteei que os alunos do curso de Computação e Técnicas Administrativas participassem da seleção para o serviço de portaria e recepção do evento. Era um risco. Se antes eram jovens com visual mauricinho e patricinha, juventude Nutella, agora seriam os nossos jovens: moças e rapazes de periferia, que batalhavam pela vida. Apesar disso, eles foram aprovados no teste. A partir dali a portaria e recepção seriam executadas apenas por alunos. Para eles, a coisa era um desafio e ao mesmo tempo uma graça caída do céu: em 2006, receberam 120 reais por dia, mais vale refeição e vale transporte.

     Na quinta-feira e na sexta, eu trabalhei no stand da Editora, enquanto os jovens trabalhavam na portaria. No sábado, eu fui a Aparecida na Romaria da Família Salesiana, e só pude ir à Expo Católica no começo da noite. Quando cheguei, a coordenadora do stand me disse que os coordenadores do evento estavam me procurando, querendo conversar comigo. Já fui preparado para ouvir as queixas e críticas, e para agradecer, e me comprometer a corrigir os conteúdos do curso para que dali em diante, conseguíssemos corresponder melhor às expectativas.

     Para minha surpresa, os coordenadores queriam me dizer que em todas as edições anteriores, nunca a feira tinha contado com uma equipe de portaria e recepção tão qualificada e eficiente quanto a equipe dos nossos alunos! Eu não conseguia controlar o meu orgulho, a minha alegria. Voltei correndo para o stand para comunicar as boas notícias aos profissionais, e passei pela portaria dando os parabéns a todos os alunos que ali estavam. Evidentemente, todos aqueles jovens, tão concentrados e ao mesmo tempo tão inseguros, vibraram pelo sucesso e pela ótima impressão que conseguiram imprimir diante dos profissionais da organização.

     Nestes tempos bicudos, em que todo mundo se preocupa com o número de pessoas desempregadas, devemos também estar atentos à qualidade do preparo profissional dos que (ainda) estão empregados, e que representam alto custo ao Brasil na composição dos preços de produtos e serviços.

     No mês passado, desci até a Rua Doze de Outubro para comprar sapatos, mas modelos especiais para diabéticos, o que é o meu caso. Na primeira loja que entrei, perguntei se tinham sapatos para diabéticos e sublinhei “não é ortopédico, mas para diabéticos”. Cortês, o atendente disse que sim, e foi ao depósito. Depois de uns vinte minutos, trouxe várias caixas de calçados especiais “para conforto dos seus pés”, de boa qualidade, mas nenhum para diabéticos. Agradeci e fui até outra sapataria. De novo, pedi calçados para diabéticos. Mais cerca de vinte minutos, até o atendente vir com uma quantidade de caixas de calçados... nenhum para diabéticos. Agradeci e fui embora. Que miséria de falta de preparo profissional, tempo e dinheiro jogado fora!

     Daí eu me vi forçado a voltar à Mooca, onde eu tinha comprado os meus calçados anteriores em uma farmácia com um setor de calçados para diabéticos. Chegando lá, a farmácia tinha crescido e colocado esse setor de calçados especiais em duas lojas na vizinhança. Atendeu-me uma mocinha toda educada, a quem fiz o pedido sublinhando: “para diabéticos”. Depois de uns quinze minutos a mocinha trouxe várias caixas de sapatos especiais, nenhum para diabéticos.  Insisti: “Os meus antigos eu os comprei aqui! Preste atenção: para diabéticos!” Ainda toda educada e meiga, a moça voltou ao depósito e de lá trouxe (ufa!) sapatos para diabéticos.

     Precisamos tornar mais aguda a consciência de que cursos de formação de mão de obra para a juventude, como os que temos no Centro Juvenil Salesiano Dom Bosco, são muito importantes não só para os jovens que os fazem, mas também para os empresários que têm necessidade de gente que funcione nas suas empresas, para os consumidores, e para os governantes que se deparam com a falta de competitividade dos nossos produtos e serviços.


Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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