Novembro de 2019 - Fazer o bem, sem olhar a quem!

     Em janeiro de 2011, os municípios serranos do estado do Rio de Janeiro, notadamente Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, sofreram enorme catástrofe natural de chuvas e enchentes, que provocaram 916 mortes, 345 desaparecidos e 35 mil pessoas desalojadas -  até então a maior tragédia natural do país. Foi uma comoção nacional, que se converteu no envio de doações. Meses depois, diante das denúncias de desvios dos recursos, o Fantástico, da Rede Globo, exibiu  matéria especial sobre o assunto. 

     De fato, tinham ocorrido desvios. Mas uma situação chamou a atenção. A reportagem descobriu um enorme depósito com cerca de um metro e meio de altura cheio de calçados. E o encarregado disse: “Realmente, tudo isso está aqui, e não foi distribuído. Mas esteja à vontade! É só pegar um sapato e tentar encontrar o seu par nesse mar imenso e confuso de calçados.”  É. Cada um tinha feito a sua doação, mas ninguém tinha pensado em amarrar um sapato no seu par,  muito menos ensacar os dois juntos numa sacolinha de plástico. Conclusão: muito esforço e  pouco resultado. E durma você com esse barulho. Não basta fazer o bem. É preciso fazer o bem de maneira organizada.

     Diferentemente, em 2009, diante de uma seca no Nordeste, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acionou a solidariedade nacional. Mas, em vez de uma ação genérica, já desde o início, cada diocese do sul do país ficou encarregada de uma determinada região nordestina. Na época, eu trabalhava em Americana, na  diocese de Limeira, e fomos incumbidos de enviar donativos diretamente à diocese de Picos, no Piauí. 

     Igualmente, anos atrás, diante de uma enchente em Santa Catarina, a Igreja Presbiteriana de São Paulo enviou imediatamente dois ou três diáconos para visitar as comunidades presbiterianas afetadas. E eles fizeram um levantamento das coisas que o povo precisava. Assim, as doações foram feitas de uma porta diretamente para a outra porta, sem gargalos ou desperdícios. 

     No Japão, país habituado a conviver com tufões, quando acontece uma tragédia, não há nenhuma reação em tumulto. As cidades irmãs das regiões atingidas fazem confluir pontualmente  o auxílio necessário. E assim, com eficiência e rapidez, as coisas são reconstruídas. 

A União Brasileira Israelita do Bem Estar Social (Unibes) fez circular um slogan: “Você nunca encontrou um judeu pobre, porque nós o encontramos antes de você”. Estou lembrando de tudo isso, porque se aproxima o período de Natal, época em que todo mundo fica mais sensível, e quer fazer algo de generosidade. 

     Pois, a comunidade da Paróquia São João Bosco amadureceu umas atitudes que se comprovam muito eficientes. Todo ano, no mês de outubro, entram em ação a Conceição e a Vanda, da Associação de Maria Auxiliadora (ADMA), com os envelopes das sacolinhas com os presentes de Natal para as crianças do Centro Juvenil Salesiano Dom Bosco, obra social ligada à paróquia que atende todos os dias, além das 240 crianças e adolescentes, mais algumas dezenas de jovens distribuídos nos diversos cursos profissionalizantes. Normalmente, em duas semanas esses envelopes são pegos pelos paroquianos. E os presentes entregues às crianças no mês de dezembro. 

     Os agentes da Pastoral da Criança, igualmente distribuem envelopes para os presentes de Natal das crianças atendidas em outra frente de trabalho. Durante o ano, na manhã do primeiro sábado de cada mês, eles cuidam da pesagem de crianças e entrevistas com as mães e avós para o acompanhamento dessas mesmas crianças. Neste ano, são 208 crianças. E em outras duas semanas, tudo é bem coordenado e distribuído. Igual movimento se repete no primeiro semestre com relação aos ovos de páscoa.

     Essas ações atingem crianças atendidas na Paróquia São João Bosco e na obra social. São pessoas próximas, que fazem parte do dia a dia da comunidade. Outras ações procuram atingir populações mais vastas, distantes dos nossos olhos, mas não distantes dos nossos corações, até abraçar o mundo inteiro. 

     No último terceiro domingo de outubro, Dia das Missões, por exemplo, as nossas ofertas em dinheiro, junto com as ofertas de todas as paróquias do mundo inteiro foram enviadas à Pontifícia Obra das Missões, para atender 1050 dioceses pobres do mundo inteiro. Do Brasil, oitenta por cento das ofertas serão destinadas à Oceania, Ásia, África e América Latina; e vinte por cento para o próprio Brasil. Em outras datas, somos chamados para outras contribuições dessa natureza.

     A Igreja continuamente nos educa a sermos solidários e fraternos, para colocarmos calor humano num mundo que, ao contrário, desenvolve a cultura do indiferentismo, do acúmulo pessoal de bens, sem preocupação com os mais fracos e excluídos. De Dom Bosco se dizia que o coração dele queria atingir o mundo inteiro. Temos a quem puxar!


Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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