Março de 2019 - O difícil jejum da Quaresma

     A sociedade faz um esforço bem orquestrado para não haver mais a divisão entre pré-carnaval, carnaval e pós-carnaval; agora decidiu de vez mergulhar num “sempre-é-carnaval”. Deverá lá ter os seus motivos! E para isso monta os seus trios elétricos e os seus megablocos carnavalescos.

     Eu, de minha parte, confesso que me é terrivelmente penoso encarar mais uma Quaresma com o seu ameaçador trio elétrico jejum-esmola-oração. Tem gente que faz jejum de carne, jejum de doce, jejum de cigarro, jejum de refrigerante, jejum de chocolate... 

     Acho mais difícil ainda é fazer jejum de celular para prestar atenção em quem está à frente. Mais difícil é fazer jejum de televisão, para conversar com os familiares. Mais difícil é fazer jejum dos ressentimentos, para voltar a acreditar em quem nos decepcionou. Mais difícil é fazer jejum da prepotência, para começar a perceber o valor do outro. Mais difícil é fazer jejum do egocentrismo, para passar a ouvir com interesse as histórias e as estórias que os outros têm necessidade de nos falar. Mais difícil é fazer jejum de críticas e palavras amargas, e passar a elogiar os outros, incentivar o outro.

     Esmola é dar algo ao outro. Mas esmola mais difícil é tirar alguma coisa de nós mesmos, para darmos ao outro. Então, esmola é dedicar o meu tempo não às minhas coisas, mas dedicar ao outro que está ao meu lado. Esmola é dar importância ao outro que está ao meu lado, e a quem até agora eu não estou dando o devido e o necessário valor. Esmola é separar o que eu não uso, e dá-lo ao outro. Esmola é eu sair de mim mesmo e das minhas preocupações, para ser gentil com o outro. Esmola é eu tirar de mim a raiva que sinto, para dar ao outro mansidão e compreensão.

     E oração, o que significa? Certamente não é fazer longos discursos para Deus, cujo resumo seja este: “Olhe como eu mereço. Pois trate de ir arrumando para mim aquilo de que eu estou precisando.” Mas oração é, como Moisés diante da sarça ardente do deserto, tirar dos pés as sandálias para pisar o chão sagrado, curvar-se e perguntar: “Senhor, o que queres que eu faça?” Ou, como São Paulo apóstolo, depois da queda do cavalo, aceitar ficar cego e ser conduzido pela mão até Ananias em Damasco e aprender de Deus. Oração é esvaziar-se dos próprios méritos, pretensões, dos próprios projetos, e aceitar depender de Deus.

     Nesta Quaresma, oração quer significar prostrarmo-nos por terra diante do Pai, como Jesus no Horto das Oliveiras, e, como Ele, suando sangue, vendo-nos subjugados por todo tipo de adversidade, ousarmos roucamente dizer do fundo do nosso ser: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Pai, afasta de mim este cálice. Mas não se faça a minha vontade, porém a Tua!”. Tudo isto custa muito e cobra muito de nós.

     Falando aos salesianos, Dom Bosco dizia que para nós, salesianos, imersos em atividades e trabalhos incessantes, não é fácil ter condições para procurar jejuns e penitências especiais. E, portanto, fazer o quê? Simplesmente, aceitar as dificuldades e os fracassos que enfrentamos nos nossos trabalhos rotineiros. Suportar sem reclamar o calor, o frio, a fome, a sede, as incompreensões, as injustiças, as ingratidões, a falta de reconhecimento. E continuar com alegria a missão, sem dar uma de vítima, de injustiçado.

     Santa Quaresma a todos.


Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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