Boa tarde!           Terça 17/07/2018     17:58

Julho de 2018 - Do fim da picada aos milagres de cada dia

     Saindo da sessão de hemodiálise às duas da tarde, depois de quatro horas naquela coisa, às vezes fico bem cansado, com fome, o humor um pouco alterado, e acabo me indispondo com o Todo-Poderoso, porque parece que Ele, data vênia, fracassou no projeto da criatura humana. É o fim da picada! Desde Brasília, o centro do poder, até a calçada que eu percorro, nada funciona. Na capital do Brasil, antes tínhamos uma presidenta “competenta, inteligenta e brilhanta” que de prático só conseguia compor um hino à mandioca, e só falava em búlgaro antigo. E agora temos um presidente que fala um português de lídimo vernáculo, com mesóclises, mas que igualmente não funciona!

     Em Brasília, temos uma câmara dos deputados inútil e corporativista. Cada um deles pode contratar até 25 secretários parlamentares, com uma retribuição prevista por lei de R$ 980,08 até R$ 15.022,33.  Subindo o caminho para a estação Ana Rosa do metrô, o meu inconformismo se depara com a visão de uma avalanche de bitucas de cigarro pisoteadas nas calçadas. Parece que todos os 18 milhões e 200 mil fumantes do Brasil, que fazem o país ocupar o oitavo lugar no ranking mundial dos fumantes, escolheram aquele pedaço de chão para agredir o meio-ambiente. Um cigarro pode demorar de um a dois anos para se decompor, tempo em que as bactérias e fungos digerem o acetato de celulose existente no filtro. Jogar um cigarro sem filtro no campo é nocivo, uma vez que o tabaco e a celulose levam quatro meses para sumir. Contudo, se jogado no asfalto, o tempo de vida da bituca é ainda maior.

E aí surge a pergunta que não quer calar: “Nossa! Por que o padre está de tão mau humor desta vez?”. Nada disso. Até agora foi apenas um lado da medalha. 

     Vamos começar por Brasília. Nenhum dos atuais 513 deputados e 81 senadores foi enfiado goela abaixo de nenhum de nós. Ninguém foi obrigado a escolher esse ou aquele, ou aquela candidata. Até foi montado um site interativo para a questão. Vá lá e confira: www.umnovocongresso.org.br Isso eu aprendi com o Sr. Raymundo Medeiros, jovem de 82 anos, que está preocupado com essas coisas, e me fez ter interesse pelo assunto. 

     Sobre o vício do fumo, uma ótima notícia: segundo o Ministério da Saúde, o hábito de fumar caiu 36 % entre os brasileiros nos últimos onze anos. E, se a calçada até o metrô é imunda, a limpeza impecável do metrô continua uma beleza, também pela cooperação da população. 

     E sobre o plástico, a União Europeia quer proibir materiais plásticos de uso único em objetos cotidianos e para os quais existem alternativas sustentáveis. 

     O que quer dizer que a solução está nas nossas mãos. Silenciosamente, como no trabalho das formiguinhas, a coisa vai progredindo. É o milagre de cada dia que está acontecendo ao nosso lado, por meio de pessoas comuns como eu você, e que, de tão frequente, periga a gente não ver.

     Na clínica que eu frequento conheci a Luciene, de 36 anos, diabética desde o nascimento, mas que a família só foi perceber quando ela tinha 18 anos. Ficou cega aos 26 anos. Mas varre a casa, cozinha que é uma maravilha, e até me trouxe um dia desses um bolo de fubá tão delicioso que me fez lembrar o que minha avó fazia. Ela se casou com um rapaz, também  cego que, ao contrário, tinha sido sempre defendido pela família, e não fazia nada. Pois com ela aprendeu a varrer a casa e a cozinhar. E a Luciene enfrenta uma hora e meia de trânsito de Embu das Artes até chegar à clínica. Brinca com todos, e está sempre disponível. Outro dia queria empurrar rampa acima, para a sala do segundo andar, um doente cadeirante, que não quis. E ela, rindo, bronqueou: “Só por que eu sou cega você não confia na minha esperta direção?”

     Também na clínica faz hemodiálise o Bira, cadeirante há 26 anos. Ele ficou na cama de um hospital por um ano inteiro, tomando banho no leito. Até o dia em que pôde voltar a tomar um banho “normal”. “Você não sabe a delícia que é banho de chuveiro!” E nós fazemos isso todo dia!

     Sorte que o Todo-Poderoso não fica tão mal-humorado como eu, e na sua paciência e sabedoria diz: “A bola está com vocês!” Ou, em palavras mais bíblicas, “dominai a terra e submetei-a”.

Padre Ailton António dos Santos, pároco
Voltar Topo Enviar a um amigo Imprimir Home