Junho de 2019 - As metástases do invasivo câncer do celular

     Estava num restaurante, quando veio se sentar na mesa à frente um jovem senhor e uma senhora, muito elegante, mas já vencida pela idade. Esse jovem senhor vestia com elegância uma roupa para lá de exótica, e portava três bolsas, não sei de que marca, porque eu não sou do ramo. Ele falou alguma coisa com o garçom, acomodou as bolsas, sentou-se, tirou de uma delas o celular e começou a ler, passando o dedo sobre a tela continuava lendo, majestosamente. 

     O garçom trouxe as coisas pedidas, ele continuou a ler, comendo alguma coisa. A senhora, ao lado dele, também começou a comer, silenciosamente, e com dignidade. Passada uma meia hora, nós de nossa mesa nos levantamos e fomos embora. Nesse tempo todo, nenhuma palavra entre aquele jovem senhor e aquela digna senhora. Em momento algum ela tinha pedido que ele conversasse com ela.

     Parecia-me conformada a seu papel de cachorrinho de estimação daquele estranho senhor, que não se sentia de maneira alguma obrigado a se portar como uma pessoa diante de outra. Para ele, no mundo havia ele, a extravagante elegância dele, as bolsas e o celular com as mídias sociais. Enfim, sumamente conectado com o mundo, e tão alienado da realidade mais próxima. Um perfeito manequim de vitrine de loja.

     Isso me remeteu ao lamento de um conhecido. Ele era chefe de um departamento de empresa, sempre muito requisitado pelos subalternos e considerado pelos superiores. Conseguia fazer desenvolver os seus auxiliares, nunca muito numerosos, entre três e quatro; e depois de um ou dois anos a empresa os chamava a outros desafios maiores. De tal forma que todo mundo que queria crescer, almejava passar pelo departamento dele. E ele tinha um segredo e um gosto: uma vez por mês levava a sua pequena e aguerrida equipe a uma pizzaria. 

     Ali se conversava descontraidamente, se falava dos defeitos dos ausentes, e se inflavam as qualidades dos presentes. Até que ele recebeu em mãos uma nova equipe, que estava gostando muito de trabalhar com ele, e naturalmente esperando a tal da pizza. Concluído um mês de trabalho, ele levou a nova equipe à pizza. E, em vez de conversarem animadamente, cada um ficava consultando o seu celular. Ele não deu nenhuma bronca na turma, mas nunca mais os convidou para a um novo happy hour. 

     Daí foi percebendo que aqueles seus colaboradores estavam atentos em várias outras coisas, exceto no ponto que deviam estar tratando no momento. Por isso, a partir daquele dia, quando consultado, dava sobre esses colaboradores elogios vazios, que não levam a nada, tipo “profissional que sempre vai requisitar um coordenador que saiba descobrir os seus talentos” (e não acrescentava: porque eu não consegui identificar nenhum mais  profundo). Depois de curto período, comunicou aos superiores que considerava que tinha  cumprido a sua missão com aqueles jovens, e se dispôs a receber outros jovens na sua equipe. E que os superiores vissem se esses colaboradores tinham pegada para outro trabalho. Conseguiu. Ufa!

Nas exéquias, inclusive!

     A mediocridade humana sempre foi a  mesma. Mas hoje está de muito potencializada pelo aparelhinho, ícone da cultura atual. Eu, como pároco, vejo as metástases do invasivo câncer do celular em várias situações. Nas exéquias no cemitério, quando pessoas, em vez de orarem pelo seu falecido, durante os breves minutos da oração de encomendação ligam ou atendem o seu precioso celular. 

     Também na igreja, nas  missas de sétimo dia, tenho de enfrentar a besta fera do dito aparelhinho. Outro dia, quando o evangelho era das bem-aventuranças, eu me perguntava o que teria de aprofundar daquele sublime sermão da montanha em breves minutos, que servisse àquelas pessoas de maneira mais imediata e concreta. E, sentado à minha frente, na primeira fila do lado esquerdo da assembleia, um jovem navegava no seu celular. Desci do presbitério, me coloquei à frente dele, e em silêncio o encarei. Até que alguém o cutucou, e ele se mancou. Continuei em silêncio, na frente dele, secando-o, e agradeci: “Você é legal, muito bacana!”

     Coitado do parente falecido: se estivesse precisando da oração dele, estaria até agora ardendo no mármore do inferno! E coitadas das pessoas que com ele conviviam, porque incapaz de sair de si mesmo, até nessas horas tão pungentes para todos.

     Por conseguinte, vamos dedicar mais atenção à realidade que está à nossa frente e ao nosso redor.


Padre Ailton António dos Santos, vigário paroquial
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