Fevereiro de 2019 - O inesperado presente que me chegou no dia de Natal

“... fiquei meditando sobre a maravilha que é o fato de a gente, muitas vezes sem o saber, poder semear sementes na vida das pessoas, sem mesmo ter ideia de como e quando elas vão germinar. Maravilha e tremenda responsabilidade!”

     Tinha terminado a missa das dez e meia no dia de Natal, e eu estava cumprimentando as pessoas, quando se aproximou de mim um senhor magro, alto, de uns 50 anos de idade, que, abrindo os braços, me disse: “Padre Ailton, me permite que eu lhe dê um abraço e um beijo?!” Sem o ter reconhecido, eu respondi: “Com alegria! E qual o seu nome?” E ele me disse: “Picolé!” Grande Picolé! Instantaneamente correu o filme das lembranças. Fazia 36 anos que não o via, desde o tempo em que ele frequentava a Colônia de Férias Nosso Rancho, em Lavrinhas e em Campos do Jordão. Bom jogador de futebol, fominha, sempre caçado pelos beques adversários. Eu gostava de provocá-lo, porque ele sempre reagia, não conseguia ficar quieto.  E eu respondi: “Picolé! Sérgio Isnard Khair!” Não era possível! Trinta e seis anos depois como o mundo é pequeno!

     Nesse longo intervalo de tempo, fiquei sabendo pelos jornais que o pai dele se tinha tornado Secretário das Finanças do Município de São Paulo. De ouvir falar, sabia que ele trabalhava como palhaço, como animador de festas. E, numa dessas da vida, havia sido confundido pelo polícia, e tinha acabado baleado. Mas agora ele de novo na minha frente, ao vivo e em cores, em três dimensões, e eu queria saber das coisas dele por ele mesmo.

     E o Picolé contou-me das grandes alegrias da profissão de palhaço, de como ele descobriu que, para falar com as pessoas, era mais importante a palhaçada do que as longas e cansativas argumentações. Contou-me da aventura que fez com a esposa percorrendo de carro, numa longa excursão, cidades do Nordeste levando a sua profissão e a sua alegria. Só se referiu de passagem ao fato de ser baleado pela polícia, porque só queria falar das alegrias e das realizações.

     Daí eu perguntei de onde ele tinha tirado a inspiração de se tornar palhaço. E ele respondeu: “De você, do padre Dilermando, do Celeste e do Batata!”, referindo-se aos educadores que tínhamos na Colônia de Férias. Eu me surpreendi, não porque os outros três não fossem engraçados, porque realmente o eram, e o eram demais. Mas por ele ter-me incluído no rolo, porque eu era mais o responsável pela programação geral das atividades, pelos horários, pela disciplina. Mas ele me lembrou a esquete A morte do cordeiro inocente, que eu tinha ensaiado com eles. E, rindo, disse que agora ele executava a peça nas festas, e que funcionava maravilhosamente.

     Para dizer a verdade, daí eu tive que fazer um esforço suplementar para me lembrar da tal esquete. Até que, enfim, me voltou à lembrança. Mas essa de eu ter sido inspiração para alguém se tornar palhaço continuava sendo uma divertida surpresa.

     Até que caiu a ficha. Eu sou salesiano, filho de Dom Bosco, que, entre mil e outras coisas, é padroeiro dos mágicos, dos circenses, porque desde a infância, na roça dos Becchi, na região de Turim, Itália, reunia a molecada das redondezas junto a corda bamba, fazia mágicas, e terminava as sessões fazendo uma breve catequese e uma oração. Sempre educou a juventude num clima de seriedade, de muita alegria, música, jogos. Escreveu até peças de teatro. Então, eu era mais um elo nessa corrente.

     Depois, eu fiquei meditando sobre a maravilha que é o fato de a gente, muitas vezes sem o saber, poder semear sementes na vida das pessoas, sem mesmo sem ter ideia de como e quando elas vão germinar. Maravilha e tremenda responsabilidade! Que Dom Bosco, o santo educador, pai dos jovens e adolescentes, nos ajude a sermos também nós educadores das pessoas, para o bem delas e das outras que as rodeiam.

     Pois foi este o grande e inesperado presente que me chegou justo no dia de Natal. Alguém poderia desejar presente maior?! Grande Picolé! Grande Dom Bosco! Vamos nesta!

Padre Ailton António dos Santos
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