Boa noite!           Domingo 21/10/2018     19:08

Outubro de 2018 - A missa terminou, começou nossa missão

Sendo cristãos, devemos ser sal da terra, luz do mundo, e fermento na massa, levando toda a sociedade para um patamar mais elevado em questão de justiça, de verdade, de concórdia, de unidade, de misericórdia para com os mais fracos

     Semanalmente, terminamos a missa com a saudação “Vamos em paz, e que o Senhor nos acompanhe!” É tradução livre da saudação original em latim “Ite! Missa est!”, isto é “Ide! É a ordem - ou o envio - (do Senhor)!” Portanto, a comunidade cristã não se esgota simplesmente na liturgia com o ouvir a Palavra e o participar da mesa do pão e do vinho do Senhor. A prova dos nove é sairmos da missa e começarmos a evangelizar, porque este foi o mandato do Senhor: “Ide! E evangelizai (anunciai)!” Então não somos cristãos apenas naquela hora e meia que dedicamos ao culto dominical; cristãos o somos toda a semana, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia. E a partir disso podemos aprofundar a  nossa reflexão sobre a questão da missão e das missões, tanto mais por ser o mês de outubro consagrado às missões.

     Sendo cristãos, devemos ser sal da terra, luz do mundo, e fermento na massa,  levando toda a sociedade para um patamar mais elevado em questão de justiça, de verdade, de concórdia, de unidade, de misericórdia para com os mais fracos. Quando o imperador Constantino concedeu liberdade de culto aos cristãos pelo Edito de Milão, no ano de 313, os cristãos, até então perseguidos e martirizados, não somavam mais que dez por cento da população do Império. Mas, pelo testemunho da sua firmeza e coerência, já influenciavam a vida pública, a ponto de transformar em todo o Império os valores que contam.

     Por conseguinte, vendo os resultados reais, concretos e práticos, podemos dizer que o Brasil, nascido como Terra de Santa Cruz, é um país ainda muito pouco cristão. Porque na nossa sociedade campeiam a desigualdade, a injustiça, a corrupção, não só entre os políticos como também entre os outros comuns dos mortais – gente de bem - mediante o querer levar vantagem em tudo, nos grandes e pequenos golpes dos folgados, aproveitadores e espertinhos. E nem serve o título de religiosos que uns querem aplicar a si próprios. Afinal, em qual candidato que se apresenta como defensor da religião você tem confiado e votado?

     Portanto, a tarefa de sermos missionários está colocada diante de nós, para transformarmos o nosso país e o mundo. A Indonésia, situada entre a Índia e a Austrália, com suas 17.508 ilhas e seus 250 milhões de habitantes (o Brasil tem cerca de 200 milhões) e cerca de um quarto do tamanho do Brasil, é a mais populosa nação do mundo composta por maioria muçulmana (cerca de 87,2% da população), sem ser um país árabe.  E não se tornou muçulmana por  imposição das armas. Até o século XIII era uma nação meio budista, meio hinduísta. Mas, por influência do contacto com comerciantes árabes numa ilha do país, entrou no país a religião muçulmana, até se tornar a religião dominante por volta do século XVI. Foi o testemunho de vida dos praticantes da religião muçulmana que contou.

     Muito acertadamente o Papa São João Paulo II incentivava os cristãos a se aventurarem “por mais profundos”. E, na mesma linha, o atual Papa Francisco insiste em que a Igreja seja uma Igreja “em saída”. Sair de si mesmo, e ir ao outro. Nestes dias que correm, desde o último dia 3 deste mês até ao dia 28 de outubro, o Sínodo dos Bispos está reunido em Roma discutindo a missão da Igreja entre os jovens. Não só para levar Cristo aos jovens, mas para que os jovens rejuvenesçam a Igreja. Pois a missão é uma ação de mão dupla: vamos aos outros para transformá-los, mas os outros também nos transformam porque têm os seus valores, e valores muito ricos.

     O gigante da caridade São Vicente de Paula, inspiração do movimento vicentino que existe em tantas paróquias e que com admirável perseverança trabalha com os mais pobres, dizia no seu tempo: “Os pobres serão os nossos mestres.” Porque, no contacto com o pobre, quem se aproxima dele, acaba aprendendo lições de humanidade, e se liberta de tantas coisinhas e coisonas que atravancam a própria vida.

     O líder da independência da Índia, Mahatma Gandhi (1869-1948), era de religião hindu, e foi estudar Direito na Inglaterra, uma nação cristã (anglicana), que exportava missionários para diversos países. Ele testemunhou: “Li os evangelhos, e me encantei. Vi a vida dos cristãos, e me decepcionei.” Porque essa mesma Inglaterra dominava a Índia e outros países como colônias, e os explorava atrozmente.
 
     Na linha contrária dessa supremacia dos ingleses, Charles de Foucauld (1858-1916), francês, chamado “o irmão universal”, indo missionar os tuaregues da Argélia, no norte da África, pregava não por palavras, mas pelo seu exemplo, e viveu o mais pobre entre os pobres, e de tal forma se inseriu na cultura do povo local, que estudou os cantos, as tradições dos povos do deserto, e seus trabalhos tornaram-se referência para o estudo da cultura tuaregue. Também foi bastante crítico com relação à colonização francesa, e a denunciava porque explorava os colonizados, como também não investia e não apoiava o desenvolvimento da Argélia. Também critica as ações dos militares no Saara e a omissão das autoridades coloniais no combate da escravidão.
 
     Muito apropriadamente, as missões têm dois padroeiros universais. O primeiro é São Francisco Xavier (1506-1556), co-fundador dos jesuítas, e que foi missionário primeiramente na Índia e depois no Japão, e morreu quando estava para entrar na China, e de quem se diz que, depois de São Paulo apóstolo, foi quem mais converteu pagãos para o cristianismo. O segundo padroeiro é Santa Teresinha do Menino Jesus  (1873-1897), que viveu enclausurada num convento carmelita; mas que, na sua vida escondida, alargava o coração na preocupação pelas missões, se correspondia com missionários franceses que trabalhavam na China e os entusiasmava... enquanto vivia o seu dia-a-dia.
 
     Que o exemplo e o ensinamento desses santos nos ajudem a sermos verdadeiros missionários.

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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