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Junho de 2018 - O edifício que caiu!

No dia 1 de maio de 2018, a casa caiu. Melhor, o edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, pegou fogo e desmoronou, levando ao chão os seus 24 andares. Pelos telejornais, a cidade e o país inteiro foram acompanhando notícia a notícia o desenrolar dos acontecimentos


     A extenuante busca dos bombeiros pelos sobreviventes debaixo dos escombros; os depoimentos dos antigos moradores agora acampando na praça; os valores variando de 150 a 400 reais que cada família pagava de aluguel aos líderes do movimento social para ocupar o prédio, até chegar ao nome de pessoas, como Ananias, Hamilton e Nireude de Jesus, do dito Movimento de Luta Social por Moradia. Ananias, contatado por telefone, disse que ia se apresentar no momento certo. 

     No dia seguinte ao desmoronamento, a palavra “aluguel” tornou-se proibida aos moradores. Quando apareceu, Ananias se apresentou também ele como pobre, como os demais, e que lutava, sim, por eles. Mais algumas frases e ele juraria que o nome dele era Madre Teresa de Calcutá, ou Irmã Dulce da Bahia. Por sua vez, muito espertamente, o Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST), de Guilherme Boulos, compareceu para afirmar que não tinha ligação com o referido movimento. Então, tá! Oremos: Deus nos livre dos líderes dos movimentos sociais!

     Esse clima de trama perverso, de terror embutido, que foi se escancarando cada vez mais para a população geral, porém desconhecido nosso havia meses. Sirvo-me das informações que eu tinha pela convivência com o pastor luterano Carlos Eduardo Radinz, capixaba, pai de um filhinho de sete anos, que até o fim do ano passado era o responsável pela igreja luterana vizinha ao prédio, e que foi ela destelhada pela catástrofe.

     O MOFIC – Movimento de Fraternidade das Igrejas Cristãs – que eu frequento em nome da Região Episcopal Lapa, era também frequentado por ele. No ano passado, lá estávamos discutindo onde fazer o culto ecumênico de Natal do MOFIC. Por ser o ano dos cinco séculos da Reforma Luterana, inicialmente sugerimos fazer esse culto na paróquia dele. Aí é que começaram a surgir as dificuldades. Esse culto é normalmente feito na segunda-feira à noite. E o pastor Carlos disse prontamente que se fosse na igreja dele, somente seria possível no domingo ao meio-dia, porque se fosse na segunda à noite, os próprios paroquianos dele seriam os primeiros a não comparecer, por medo da violência. E, também nos fez saber, sobre o terror dos moradores do prédio nas mãos desses líderes do tal movimento, e de uma coisa que as reportagens não aprofundaram: também dos traficantes que tinham lá um lugar seguro para estocarem suas drogas e daí saírem rapidamente para o seu tráfico no centro da cidade. Então, oremos: Deus nos livre dos traficantes e das milícias!

     Começamos a perceber que, como se dizia antigamente, da missa não sabemos nem a metade. Daí veio à tona a existência de mais setenta prédios em condições idênticas no centro da cidade, e do problema de falta de moradia, enquanto há apartamento triplex disponível na praia de Guarujá, que, agora se sabe, não era de ninguém que tenha dez dedos nas mãos. Sob o impacto desses acontecimentos, a Prefeitura criou uma força tarefa para entregar – agora, somente agora! – uma radiografia urgente da situação. Então, oremos: Deus nos livre dos políticos da situação e da oposição.

     Mas ainda nos restou o respeito e admiração pelos bombeiros que trabalharam incansavelmente por semanas na remoção dos escombros. Até que... os bombeiros e forças de segurança foram embora num clic, evaporaram, e a igreja viu-se imediatamente invadida. Antes, os pastores não podiam entrar ali porque estava tudo interditado em vista dos trabalhos dos  homens da ordem. E agora, ex abrupto, os homens da ordem tinham sumido e deixaram o vazio e a desordem. 

     Então, para nós, mais uma lição para a vida: não basta fazer o bem, é preciso fazer o bem, bem feito.

     À população resta rezar: “Dos bandidos e dos traficantes livrai-nos, Deus.  Das autoridades, do Governo e das ôtoridades livrai-nos Deus! Dos políticos da situação, dos políticos da oposição livrai-nos, Deus. E (até?!) dos bombeiros (infelizmente?!) livrai-nos, Deus.”

Padre Ailton António dos Santos, pároco
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